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Uma mulher, múltiplas personalidades: a vida fragmentada de Melanie Goodwin

Goodwin sofre com um transtorno mental que faz com que ela tenha múltiplas personalidades, assim como acontece com o protagonista do filme “Fragmentado”

Ingredi Brunato Publicado em 20/09/2020, às 09h00

Fotografia meramente ilustrativa de uma garota encarando espelho partido
Fotografia meramente ilustrativa de uma garota encarando espelho partido - Divulgação

Melanie Goodwin é uma mulher britânica de 64 anos, que é casada, trabalha e tem filhos. Sua vida normal, contudo, não veio de forma gratuita: a estabilidade surgiu somente após muito esforço e terapia. Isso porque Goodwin possui uma doença chamada Transtorno de Identidade Dissociativa (TDI), previamente conhecido como Transtorno de Múltiplas Personalidades. A impressionante história de Melanie foi revelada pela BBC em 2017.

Isso significa que ela não tem uma personalidade única, e sim plural, como se vários indivíduos dividissem sua consciência. Cada uma de suas partes têm gostos, características e idades diferentes. Por exemplo, uma sofre de anorexia, uma é uma garotinha assustada de apenas 3 anos de idade, uma é uma adolescente de 16, outra já teve tentativas de suicídio no passado, e pelo menos nove partes suas são adultas e administram diferentes partes de sua vida. 

Seria de se imaginar que uma condição tão única seria impossível de passar despercebida na vida de alguém, mas Melanie só descobriu que tinha o transtorno aos 40 anos de idade, quando passou pelo estresse de uma tragédia familiar, e também estava por acaso lendo um livro chamado The Flock (O Bando, em tradução livre), que traz a doença em sua temática. 

Ao se reconhecer nas páginas, ela teria falado com o marido, com quem já era então casada faziam 20 anos. Ele se lembrou de uma das vezes em que o comportamento dela foi errático: Em um dia, perguntou se a esposa queria café, e ela disse “Sim, adoraria”, já no dia seguinte a mesma pergunta gerou a resposta “Você sabe que eu não bebo café, sou alérgica!”. Mais tarde, Melania descobriu que era sua personalidade de 16 anos que preferia distância da bebida. 

Ilustração artística de mulher fragmentada. Crédito: Divulgação/Pixabay 

 

TDI 

A condição é causada pela presença de traumas repetitivos durante a infância. Isso porque o cérebro da criança passa a desenvolver mecanismos de proteção para garantir sua sobrevivência, dentre eles barreiras de amnésia na personalidade da criança.

Uma parte então esquece os acontecimentos que a traumatizaram, e tem a chance de viver uma infância normal, enquanto uma outra parte lida com as consequências dos abusos sofridos. 

“Ela está usando sua cognição inconsciente para adaptar sua maneira de pensar e seu comportamento para conseguir se manter segura. O trauma pode congelar você no tempo. E porque o trauma continua com o passar dos anos, há vários pequenos congelamentos acontecendo por toda parte.”, explicou o psicoterapeuta Remy Aquerone, que trabalha no Centro Pottergate para Dissociação e Trauma, onde Goodwin se trata, no Reino Unido. 

Nem todo mundo que passa por abusos na infância, porém, acaba com Transtorno de Identidade Dissociativa. Outros fatores também influenciam o desenvolvimento da doença, como herança genética, e uma conexão fraca com os cuidadores durante os primeiros anos. 

“O que não se tem quando criança é um pai ou mãe metaforicamente segurando você e o ajudando a aprender como lidar consigo mesmo”, exemplificou a especialista em psicologia Wendy Johnson, em entrevista à BBC, se referindo a esse tipo de laço instável. 

Tratamento 

Melanie Goodwin enfrentou muitos desafios em seu tratamento, incluindo a quebra das barreiras de amnésia que a protegiam dos seus traumas do passado. Isso porque memórias de abusos sexuais começados quando tinha apenas 3 anos, e que se estenderam até os 16 acabaram voltando para sua consciência. O suporte de seu marido, e uma relação de confiança com seu terapeuta foram fundamentais durante o processo, que não foi curto. 

Por uma década, ela teve dificuldades de administrar sua vida, até afinal descobrir como melhor cooperar com suas partes: “Aprendemos a compartilhar essa vida em comum entre nós”, contou Goodwin. Atualmente, Melanie é diretora da associação First Person Plural (ou “Primeira Pessoa do Plural”, em tradução livre), e busca espalhar mais informações sobre o TDI, para que as pessoas possam entender melhor a realidade desse complexo transtorno. 


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