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As vezes que Olavo de Carvalho desvalidou os efeitos da Covid-19

De “mocoronga vírus” a "historinha de terror para acovardar a população”, guru bolsonarista desdenhou diversas vezes da Covid-19

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 29/01/2022, às 00h00

O astrólogo Olavo de Carvalho
O astrólogo Olavo de Carvalho - Menezesfernandes via Wikimedia Commons

“Essa epidemia simplesmente não existe”. Foram essas palavras que o guru bolsonarista Olavo de Carvalho usou para definir a epidemia do novo coronavírus em 22 de março de 2020. Aquela altura, o Brasil ainda vivia seu estágio inicial da doença. Dados da época, divulgados pelo Ministério da Saúde, apontavam para 1.546 casos confirmados e 25 mortes.

Até a última atualização do Our World In Data, em 28 de janeiro de 2022, nosso país já registrou 24,8 milhões de casos da doença, sendo que deste montante, mais de 625 mil pessoas perderam suas vidas. Olavo de Carvalho foi uma delas. 

Segundo noticiado pela equipe do site do Aventuras na História, a morte do escritor foi noticiada pelos seus familiares em sua rede social na madrugada da última terça-feira, 25. Olavo, que tinha 74 anos, havia contraído a Covid dias antes, em 16 de janeiro. 

No mesmo dia, Heloísa de Carvalho, primogênita do guru, confirmou que o pai faleceu em decorrência da doença. “Olavo morreu de Covid, não tem como eu sentir grande tristeza pela morte dele, mas também não estou feliz. Sendo sincera comigo e meus sentimentos".

Olavo não só negava a pandemia, como também desdenhava da eficácia das vacinas. “Vacinas matam ou endoidam. Nunca dê uma a um filho seu. Se houver algum problema, venha aqui que eu resolvo”.

O escritor, infelizmente, não estava só. Seus pensamentos eram, e ainda são, propagados aos montes pelas redes sociais. A “gripezinha”, desdenhada por muitos, é a doença mais letal desde a Gripe Espanhola, que acometeu, pelo menos, 50 milhões de pessoas a mais de um século atrás. 

Ao contrário do passado, a vacina contra o novo coronavírus já existe e é direito de todo cidadão tomá-la gratuitamente. Para se ter uma ideia, o imunizante contra a Gripe Espanhola só surgiu em meados da década de 1930, conforme recorda matéria do Estadão. 

Mesmo assim, nesta semana, noticiamos a morte de um jovem no Ceará, que faleceu por complicações da doença ao recusar a imunização. “[A vítima] não havia tomado nenhuma dose de vacina para Covid, por opinião própria", informou a Secretaria da Saúde de Camocim.

O negacionismo que mata

Pouco após a notícia da morte de Olavo, antes de confirmado o óbito pela Covid, usuários das redes sociais resgataram algumas publicações onde o bolsonarista minimizava os efeitos da pandemia e ainda criticava medidas de isolamento social, além do uso de máscaras.

O medo de um suposto vírus mortífero não passa de historinha de terror para acovardar a população e fazê-la aceitar a escravidão como um presente de Papai Noel", escreveu em maio de 2020. 

No início do ano passado, Olavo de Carvalho continuava a desdenhar do vírus. "Dúvida cruel. O Vírus Mocoronga mata mesmo as pessoas ou só as ajuda a entrar nas estatísticas?".

Naquele momento, nem mesmo as mais de 22 mil mortes só no mês de janeiro pareciam comovê-lo. Enquanto o guru tratava as vítimas como "estatísticas" de uma farsa, o país já totalizava mais de  217 mil vidas perdidas. 

Apesar disso, no dia 17 daquele mês, a enfermeira Mônica Calazans se tornava a primeira pessoa a se vacinar no Brasil. Olavo, porém, já criticava, desde outubro de 2020, a possível aprovação da Coronavac, imunizante que chama pejorativamente de “vacina chinesa”.

“O Brasil não quer vacina chinesa obrigatória, o STF quer. Quem manda mais? O Brasil não quer ideologia de gênero nas escolas infantis. O STF quer. Quem manda mais? O BRASIL NÃO MANDA NADA".

Na mesma medida que desdenhava dos imunizantes, o escritor exaltava medicamentos sem eficácia comprovada, como a controversa cloroquina. "Na França o primeiro-ministro e o ministro da Saúde que vetaram a cloroquina perderam os cargos e respondem a processo. No Brasil, xingado de genocida é o presidente que, liberando a cloroquina, salvou milhares de vidas. Esse país é o paraíso da ignorância".

Olavo, porém, ‘esqueceu’ de citar que as demissões nada tiveram relações com a proibição dos comprimidos milagrosos. Segundo recordou a BBC Brasil, os ministros foram demitidos por conta de suas falhas em relação a uma resposta satisfatória no combate à pandemia, visto que hospitais franceses sofriam com a escassez de equipamentos médicos, por exemplo. 

Entre o ‘ir e vir’ e o remédio ‘para ema ver!’ 

Ao longo da pandemia um dos principais debates que se aflorou na nossa sociedade foi sobre a necessidade de medidas de isolamento social. Enquanto muitos se mostravam a favor da continuidade do comércio, outros eram árduos defensores de seguirem as recomendações sanitárias e ficarem em suas casas. 

"Tem alguns idiotas que até hoje ficam em casa”, atacou Bolsonaro em maio de 2021, conforme reproduziu a Folha, quando mais de 80% da população sequer havia se imunizado com a primeira dose. 

Olavo de Carvalho seguia o mesmo pensamento e também contestava as medidas de isolamento. “Conselhos de saúde matam mais que o coronavírus”, declarou certa vez o guru do presidente.

"Paralisar a atividade econômica mundial para debelar uma epidemia que mata menos de 0,1 por cento DOS CONTAMINADOS (não da população inteira) é uma vigarice tão óbvia que o mero fato de aceitar essa proposta como hipótese para discussão já prova deficiência mental", tuitou.

Em 24 de abril de 2020, o guru também já contestava as medidas de isolamento, a qual considerava um 'sórdido crime’: "Essa campanha para nos 'proteger da pandemia' é o mais vasto e mais sórdido crime já cometido contra a espécie humana inteira."

O pensamento do escritor não era compartilhado apenas em suas redes sociais, Olavo fazia questão de disseminar sua visão negacionista em entrevistas, como a que concedeu à BBC News em maio de 2020, quando defendeu o uso de remédio ‘alternativos’.

O nível de cura é imenso. No Brasil, o sucesso da cloroquina está mais do que comprovado", declarou sem apresentar dados. 

Em um de seus últimos tweets, porém, Olavo de Carvalho parece ter tido um momento de sanidade ao fazer uma reflexão sobre a sociedade: “Quanto mais louco fica o mundo, mais as pessoas acham tudo normal”.