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Vômitos, convulsões e desmaios: a conspiratória morte de Dom João VI

O monarca português estava cercado de inimigos desde quando jurou a Constituição, negando o legado absolutista dos Bragança

André Nogueira Publicado em 23/05/2020, às 08h00

Dom João VI
Dom João VI - Wikimedia Commons

A morte de Dom João VI, rei de Portugal que marcou a regência pré-independência no Brasil, é cercada de grandes polêmicas e especulações. O monarca, que teve uma vida política muito agitada e repleta de conspirações por parte do filho (D. Miguel) e da esposa (D. Carlota), principalmente nos seus últimos anos, morreu sentindo fortes enjoos, sofrendo desmaios, convulsões e crises de vômito. Após o óbito, o caso levantou muitas suspeitas.

Suspeitas essas que já eram levantadas em vida pelo imperador português, que, temendo um assassinato, vinculou sua filha Isabel Maria a regência em caso de sua morte, para fortalecer seu partido até que o herdeiro Dom Pedro retornasse para governar (e, assim, fechasse o ciclo que concluía na restauração da maior colônia lusitana, o que não ocorreu).

De acordo com as crônicas da corte, D. João começou a passar mal em seu Palácio em março de 1826, com sintomas de intoxicação, e, no dia 10 daquele mês, finalmente faleceu. Foram feitos boletins clínicos improvisados que foram roubados e sumiram para sempre, e o assunto suprimiu-se em silêncio. Com isso, as suspeitas de assassinato aumentaram, naquele cenário em que o constitucionalista sofria revés da ala conservadora por todos os lados.

Dom João VI / Crédito: Wikimedia Commons

 

Finalmente, entre 2007 e 2010, foi realizada uma autópsia conclusiva nos restos do monarca. A pesquisa revelou o fim das polêmicas especulativas: Dom João VI teria morrido após um envenenamento de arsênico, o mesmo produto que matara Napoleão.

A pesquisa, conduzida por dois arqueólogos e um médico-legista, confirmou que o corpo do monarca guardava “130 vezes mais arsênico [...] do que é possível existir no organismo humano”, declarou oficialmente Fernando Rodrigues Ferreira, da Associação de Arqueólogos Portugueses.

O envenenamento por arsênio, que comumente levou líderes da História em conspirações, pode ser feito gradualmente, pois a substância é acumulada no corpo.

"Até o final do século 19, não havia diagnóstico químico que comprovasse a morte por envenenamento com arsênico", explicou o legista Antony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo, à revista Época.

João poderia ter sido infectado na comida ou bebida por vários dias consecutivos por algum agente próximo no Palácio.

Normalmente, esse tipo de análise é feita com fios de cabelo ou unhas do falecido, mas a pesquisa em D. João foi possível após os arqueólogos envolvidos localizarem um pote com partes das vísceras do Bragança no porão de uma capela em Portugal. O pouco material foi o suficiente para a descoberta reveladora.

Para José Sebastião Witter, do Museu do Ipiranga, “a partir dessa constatação, é possível alterar as pesquisas a respeito da corte portuguesa naquele período".

A descoberta, que tem 10 anos, possibilitou (e ainda possibilita) uma revisão da historiografia em relação aos processos que marcaram o fim do século 19 em Portugal, marcado por invasões estrangeiras, brigas dinásticas e uma Guerra Civil.

D. João e D. Carlota / Crédito: Wikimedia Commons

 

A morte de Dom João VI deu abertura para um dos maiores conflitos monárquicos da História de Portugal, pois o herdeiro D. Pedro (o IV, no pais), aliado a seu legado e à junta regencial deixada pelo pai, era apoiado pelos liberais, contra a vontade do pretendente mais próximo (pois estava em Lisboa, ao contrário do irmão que governava no Rio de Janeiro), D. Miguel, o absolutista. Essa disputa acabou na vitória dos constitucionalistas em 1834.


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