O medo da mulher insaciável

Quando se acreditava que o cérebro feminino podia ser dominado pelo útero

Mary del Priore Publicado em 01/07/2016, às 08h38 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

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. - Hafaell
Nos finais do século 19, o domínio da sexualidade feminina era sempre da “outra”, da “mulher bonita”, da cortesã ou... da louca, da histérica. Os estudos sobre a doença mental, monopólio dos alienistas, e a criação da cadeira de clínica psiquiátrica nos cursos da faculdade de medicina, desde 1879, acabaram por consagrar a ética do bom e do mau comportamento sexual. Esses eram tempos em que médicos importantes, como o doutor Vicente Maia, examinavam mulheres cujas infidelidades ou amores múltiplos se distanciavam da ordem e da higiene desejada pela ordem burguesa que se instalara nos centros urbanos. 
Fichas médicas abundam em informações sobre o ciclo menstrual, a vivacidade precoce, a linguagem livre de certas pacientes associando tais “sintomas” a distúrbios psiquiátricos. Distúrbios uterinos podiam estar relacionados com ataques epiléticos e mesmo crimes de morte. Os médicos começavam a delinear o perfil do que chamavam a “mulher histérica”, tendo se tornado moda, entre as de elite, “ataques” quando da saída de um enterro ou da chegada de uma notícia ruim. 
A mulher tinha que ser naturalmente frágil, bonita, sedutora, boa mãe, submissa e doce etc. As que revelassem atributos opostos seriam consideradas seres antinaturais. Partia-se do princípio de que, graças à natureza feminina, o instinto materno anulava o instinto sexual e, consequentemente, aquela que sentisse desejo ou prazer sexual seria inevitavelmente anormal. 
“Aquilo que os homens sentiam”, no entender do doutor William Acton, defensor da anestesia sexual feminina, só raras vezes atingiria as mulheres, transformando-as em ninfomaníacas. Ou, na opinião do renomado médico francês Esquirol, que tanto influenciou nossos doutores: “Toda mulher é feita para sentir, e sentir é quase histeria”. O destino de tais aberrações? O hospício. Direto! 
Entre os alienistas brasileiros associava-se diretamente a sexualidade e a afetividade. O médico Rodrigo José Maurício Júnior, na primeira tese sobre o tema, apresentada na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1838, não hesitava em afirmar: “As mulheres nas quais predominar uma superabundância vital, um sistema sanguíneo ou nervoso muito pronunciado, uma cor escura ou vermelha, olhos vivos e negros, lábios de um vermelho escarlate, boca grande, dentes alvos, abundância de pelos e de cor negra, desenvolvimento das partes sexuais, estão também sujeitas a sofrer dessa neurose”. E ele não estava só. 
Muitos mais pensavam que a histeria era decorrente do fato de que o cérebro feminino podia ser dominado pelo útero. Júlio Ribeiro, em seu romance naturalista A Carne, de 1888, põe na boca de um dos protagonistas, Barbosa, a certeza de que fora deixado por sua amante, Lenita, porque esta, possuidora de um cérebro fraco e escravizado pela carne, tornara-se histérica. Na versão de outro médico, doutor Henrique Roxo, a excessiva voluptuosidade da mulher era facilmente detectável por um sintoma óbvio: “Eram péssimas donas de casa”.  Das teses de medicina ao romance e destes para as realidades nuas e cruas do Hospício Nacional dos Alienados, a verdade era uma só: a sexualidade feminina era terreno perigosíssimo e era de bom-tom não a confundir com sentimentos honestos. A iniciação a práticas sexuais seguidas do abandono do amante levava à degeneração. Acreditava-se que, uma vez conhecedoras de atividades sexuais, as mulheres não podiam deixar de exercê-las, como vemos no romance de Aluísio de Azevedo, Casa de Pensão: viúva, a personagem Nini passa a ter sintomas de histeria. A não satisfação do desejo sexual cobrava um preço alto. A paixão por outros homens que não o marido, ou seja, o adultério, também aparecia aos olhos dos médicos como manifestação histérica. 
Os remédios eram os mesmos havia 200 anos: banho frio, exercícios, passeios a pé. Em casos extremos, recomendava-se – pelo menos em tratados médicos – a ablação do clitóris ou a cauterização da uretra. Perseguiam-se as histéricas e ninfômanas. Debruçados sobre a sexualidade alheia, examinando-a em detalhes, os médicos, por sua vez, acabaram por transformar seus tratados sobre a matéria no melhor da literatura pornográfica do período.