Testemunha ocular da Segunda Guerra: Joel Silveira

A AH entrevistou o maior correspondente de guerra do Brasil

Márcio Sampaio de Castro Publicado em 21/02/2017, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

O jornalista durante a Segunda Guerra
O jornalista durante a Segunda Guerra - Diários Associados

O jornalista e escritor Joel Silveira acompanhou de perto os fatos e personalidades que marcaram a história do país no século 20. Falecido em 2007, ele falou com a AH menos de um ano antes de sua morte. 

Sergipano de Aracaju, Joel começou sua carreira aos 14 anos, trabalhando em um jornal operário. “Eu sempre fui um homem de esquerda, mesmo na época sem saber o que era esquerda”, afirmou Joel. Aos 19, ele chegou ao Rio de Janeiro, onde virou amigo de intelectuais como Graciliano Ramos e Jorge Amado. Desde então, passou por algumas das principais publicações do país, incluindo a inovadora revista Diretrizes, de Samuel Wainer, e os poderosos Diários Associados, de Assis Chateaubriand (patrão que foi o responsável por lhe dar o apelido de “Víbora”, inspirado em seu estilo ácido de escrever).

Sempre próximo do poder, Joel conheceu pessoalmente quase todos os presidentes brasileiros desde Getúlio Vargas – Jânio Quadros e Tancredo Neves chegaram a frequentar seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. Viveu lá até o fim, com quase todas as paredes estão cobertas por livros (19 mil no total). 

Conversando com a AH, ele relembrou episódios como a dura campanha brasileira na Segunda Guerra e os bastidores do regime militar, época em que foi preso várias vezes.

AH – Como o senhor foi trabalhar com o Assis Chateaubriand?

Joel Silveira – Fiquei cinco anos na revista Diretrizes. Ela foi fechada em 1944, por causa de uma entrevista que fiz com o Monteiro Lobato, na qual ele declarou: “O voto deve sair do povo como a fumaça da fogueira”. O Samuel Wainer botou a cara do Lobato na capa junto com essa frase. Aí o Departamento de Imprensa e Propaganda fechou a revista. Eu fugi para Sergipe e o Samuel se asilou na embaixada do Chile. Depois de 15 dias no Sergipe, o Assis Chateaubriand mandou me chamar. Eu não gostava dele. Não pessoalmente, mas dos métodos dele, da sua maneira de fazer jornalismo. Hoje eu tenho outra visão. Ele era um jornalista que extorquia dinheiro dos ricos, mas ao mesmo tempo foi o homem que fez o Museu de Arte de São Paulo, incentivou o princípio da aviação brasileira, trouxe para cá a televisão. Ele tinha um lado positivo. Quando eu entrei na sala dele ele me disse: “Senhor Silveira, o senhor é uma víbora e o senhor vai trabalhar para mim. Vá lá para o terceiro andar e fale com o Carlos Lacerda”.

Em 1944, o senhor foi escolhido para ser correspondente na Itália dos Diários Associados, acompanhando a FEB (Força Expedicionária Brasileira) durante a Segunda Guerra. Como foi essa escolha?
Naquele tempo, três jornalistas dos Associados, Carlos Lacerda, David Nasser e Ivan Morel, com muita justiça, queriam ser os correspondentes de guerra. Eu jamais poderia imaginar que fosse ser o escolhido. Aquele dia, quando eu desci para o terceiro andar, o Carlos me falou: “Olha, você vai fazer uma coisa maravilhosa, você vai até o Acre e depois vem descendo. Acre, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí... até a Bahia. Quando chegar lá você vem embora”. Só depois é que eu vim a perceber que, com a viagem, o Carlos queria me afastar. Talvez ele já soubesse que eu estava sendo entrevistado para ser correspondente. Eu fui e, nessa viagem, publiquei uma reportagem que mexia com uma amiga de Chateaubriand, Rosalina Coelho Lisboa. Ele ficou uma fera. Começaram a me mandar telegramas para eu retornar. Quando eu cheguei, fui até a sala dele e ele me disse: “Senhor Silveira, o senhor não sabe o que fez! Dona Rosalina é uma dama”. Eu lhe respondi que jamais agrediria uma amiga dele se soubesse. Foi quando me desculpei e disse que ia embora. Ele me respondeu: “O senhor está enganado, o senhor vai levar um corretivo. O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor: não me morra! Repórter não é para morrer, repórter é para mandar notícia!”

O Brasil estava preparado para tomar parte na guerra?
A FEB realizou todas as tarefas que lhe foram acometidas com o maior heroísmo, com a maior bravura, culminando com a tomada de Monte Castelo e Montese, duas batalhas ferozes. Era tese do general Mascarenhas de Morais que Monte Castelo deveria ser tomado por toda a divisão. Eu estive lá pessoalmente e vi isso. Já o comando americano defendia outra tese, de que o ataque poderia ser feito somente por um regimento (o equivalente a um terço de uma divisão). As duas primeiras tentativas fracassaram. Na terceira, o Mascarenhas desobedeceu os americanos. Começou às 5 horas da manhã e, às 6 da tarde, os brasileiros estavam no cume, inclusive eu. Foi aí que eu percebi a situação terrível em que esteve a FEB durante meses. Estávamos em uma verdadeira cratera. No terreno montanhoso dos Apeninos, os alemães estavam nas gripas e a qualquer movimento eles atiravam. Quando pude ver tudo lá de cima, pensei comigo: “Meu Deus, onde a FEB veio se meter!”

O senhor estava em Milão no dia em que penduraram os cadáveres de Mussolini e sua amante em praça pública?
Eu cheguei no momento exato, quando estavam começando a dependurá-los pelas pernas. O italiano é muito cínico, graças a Deus! Quando cheguei à Itália, havia 60 milhões de fascistas. Naquele dia havia 60 milhões de antifascistas. Muitos dos mesmos que haviam aplaudido Mussolini estavam agora cuspindo no cadáver dele, até que os ingleses resolveram acabar com aquela situação. Retiraram os corpos e os enterraram.

Essa foi a última cena grotesca que o senhor testemunhou na guerra?
A guerra terminou, então fui para Paris e de lá para Berlim. A cidade não existia mais. Um mau cheiro desgraçado. Engraçado que, quando entrei na cidade, um oficial me disse: “Tome cuidado com os franco-atiradores, mas principalmente com as feras”. Eu perguntei de que feras ele estava falando e ele me disse que eram os leões e tigres que haviam escapado do zoológico após um bombardeio. Mas o odor era chocante, terrível, aquele cheiro de carne podre...

Voltando para a política brasileira: por que, no pós-guerra, houve tantos oficiais da FEB envolvidos com o golpe militar de 1964?
O pessoal da FEB ficou muito frustrado quando voltou para o Brasil. Primeiro porque o Getúlio, num daqueles atos de habilidade, suposta habilidade, desfez a FEB. No mesmo dia do desembarque, cada um era mandado para sua terra. Ficaram com um ódio terrível do Getúlio e começou uma conspiração. Ao mesmo tempo, lá na Itália, eles tiveram um contato muito grande com os americanos. E o negócio da democracia foi entrando na cabeça dessa gente. Quando ocorreu o Golpe de 64, com o Castelo Branco, era exatamente para restaurar a democracia, não para fazer o que fizeram. Eu conversei com muitos deles, inclusive com o próprio Castelo, e ele me disse: “Nossa intenção não era essa”. O Castelo pensava em ser reeleito, tinha preparado uma constituição para a volta do Brasil à democracia. Mas a ala dura do Exército, chefiada pelo Costa e Silva, que era um grupo de semi-analfabetos, se rebelou. Não deram a reeleição do Castelo Branco e o Costa e Silva assumiu. Aí começou realmente a tirania. Muitos elementos da FEB, depois que se constituiu o governo do Costa e Silva, se afastaram.

Como foi ter sido preso horas depois que a ditadura aprovou o Ato Institucional nº 5, que fechou o Congresso e endureceu muito a perseguição política?
Foi quando eu fui preso pela primeira vez, em 13 de dezembro de 1968. Entraram aqui um capitão, um sargento... Todos cheios de metralhadoras. Eu estava com uma gripe terrível. Quarenta graus de febre. O médico tinha acabado de sair, senão ele seria preso também. Então me levaram. Coincidiu que o coronel comandante do batalhão de guarda tinha sido primeiro-tenente da FEB e me conhecia. Quando ele soube que eu estava preso ali, a primeira providência dele foi me tirar da “enxerga”, um quartinho com a porta aberta, a latrina aberta, aquela coisa horrorosa... Ele me botou na sala dos oficiais e mandou logo um médico para me examinar. Fui preso às 6 horas da tarde e caí no sono. Quando acordei tinha uma pessoa lá comigo. Eu não a conhecia. Aí eu lhe disse: “O senhor está preso? Qual o seu nome?” Ele me respondeu: “Carlos Heitor Cony”. Nós nos conhecíamos através dos jornais, mas não tínhamos contato pessoal. Virou um companheiro de prisão formidável. Não fui torturado. Depois voltaria para lá mais quatro vezes.

O senhor foi um preso de consciência?
Mas é claro! Eu os amolava e eles me prendiam. Me soltavam e eu voltava a amolá-los. Fui preso pelo Exército, pela Marinha e depois pela Aeronáutica.

O senhor acha que o Brasil regrediu durante o regime militar?
Regrediu terrivelmente. Sob o ponto de vista político, voltou para o marco zero.

Foi pior que o Estado Novo, então?
Ah, até hoje não se sabe onde estão os cadáveres de muitos mortos do regime militar. No Estado Novo, o Getúlio não matava ninguém, se matava ninguém sabe até hoje. Ele prendia, como no caso do Graciliano. Não era bem o Getúlio, era o Filinto Müller. Ele tinha horror de comunismo porque, quando foi da Coluna Prestes, foi encarregado de angariar fundos e deu um desfalque, sendo expulso da Coluna. Virou um anticomunista feroz. Ele mandou prender o Graciliano, que já era um romancista consagrado. Quando a Alzirinha (Alzira Vargas, filha de Getúlio) soube que ele havia sido preso, virou para o pai e disse: “Patrão!” – ela chamava o pai de “patrão” – “Não é possível... Graciliano Ramos?!” Getúlio ligou para o Filinto e perguntou por quê. Aí a Alzirinha, muito atrevida, pegou o telefone e disse: “Solte ele imediatamente! E não faça mais isso, senão eu te demito!” Soltaram. Um mês depois, sem o Graciliano saber, o Getúlio o nomeou fiscal de ensino. Veja o que era a ditadura do Getúlio! Ele virou para mim e disse: “Será que aceito?” E eu lhe disse: “Mas é claro, Graciliano, você está precisando de dinheiro. E, ademais, não foi você quem pediu”. Aí ele aceitou.

Das personalidades que o senhor conheceu, qual foi a que mais o impressionou?
Aqui no Brasil foi o Getúlio. Teve o caso da entrevista que fui fazer com ele e quando me recebeu, inicialmente para uma conversa, me chamava de “doutor Silveira”, mas, quando lhe entreguei as perguntas, aquele homem educado, bem vestido, cheirando a colônia inglesa se transfigurou. Empurrou aquela cadeira enorme da presidência para trás, jogou o papel na minha direção e disse: “O senhor trate disso com o doutor Lourival (Fontes, ministro da Propaganda de Vargas)”. Foi-se embora, nem me estendeu a mão. A postura dele me impressionou muito.

Só para terminar: dizem que o senhor roubou uma namorada do Juscelino Kubitschek. É verdade?
Isso foi quando ele era deputado federal. Tinha uma moça que era taquígrafa na Câmara e namorava com ele, mas aí nós nos conhecemos e nos gostamos e acabamos ficando juntos. Tempos depois, quando ele estava no Panamá, já como presidente, participando de um evento com outros presidentes latino-americanos, ele veio falar comigo. “E a nossa fulana, como vai?” Eu respondi: “Nossa não, presidente, minha!” (risos)