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Testeira

A arte urbana, expressão de grafiteiros, pichadores e pixadores

Entre o mercado estabelecido e a resistência cultural, artistas se expressam e mostram talento e ousadia

Valdo Resende* Publicado em 18/11/2023, às 09h00

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Banksy. 2002. Londres. Um dos mais famosos registros do artista - Dominic Robinson
Banksy. 2002. Londres. Um dos mais famosos registros do artista - Dominic Robinson

Com as próprias mãos ou um outro objeto, desde a pré-história que o ser humano sai por aí deixando sua “marca”. As imagens rupestres registram a passagem de nossos semelhantes pelo planeta. Depois vieram as primeiras formas de escrita pictográficas, ou seja, a comunicação era via imagem. Numa longa trajetória, símbolos simplificados geraram sinais fonéticos legando-nos os alfabetos. E assim, basta dominar o abc que é comum encontrar gente rabiscando coisas ou o próprio nome por tudo quanto é lugar. Rabiscos, em italiano sgraffito, estão no cerne do grafite.

Grafite pode ser uma fase na vida das pessoas: Uma comadre muito sábia, historiadora, destinou uma parede da casa aos dois filhos pequenos: “é de vocês. Façam o que quiserem”. As demais paredes da casa intactas, o espaço das crianças era digno de registro de como brincavam, de como viam o mundo, como desenvolveram formas de comunicação e expressão, do quanto foram crianças felizes. Grafite de primeiríssima! Como tal, ficou perdido sob camadas de tinta aplicadas por quem adquiriu o imóvel. As ditas crianças não se tornaram grafiteiros nem pichadores.

Grafite pode ser o caminho para um grande artista:  Um evento na velha Pisa celebra 850 anos do início da construção da torre que, inclinada, colocou a cidade italiana na mente de milhões de pessoas. Um artista brasileiro, Eduardo Kobra, foi convidado para expor no Palazzo Blu, um museu de arte da cidade. São oito telas com os trabalhos coloridos criados pelo brasileiro. Obras de artistas como Kandinsky, Miró, Matisse e Picasso receberam releituras de Kobra, que também criou para a cidade um imenso mural a céu aberto – 160 metros quadrados – com o retrato de Galileu Galilei, o ilustre cidadão de Pisa. A exposição vai até 6 de janeiro de 2024.

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Kobra – 2016 – Detalhe do mural Etnias, para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro /Crédito: Buzâncar

Eduardo Kobra é um artista urbano, paulista nascido na periferia e tornado célebre com seus murais. Iniciou seu trabalho como pichador, atuando clandestinamente, tendo detenções no seu histórico antes de ser reconhecido e alçado à carreira internacional. Em 2011 fez seu primeiro mural internacional, na França, e em 2016, durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foi destaque com o imenso mural “Etnias”. São 2,5 mil metros quadrados da obra que gerou um recorde para o artista, que logo se superou na terra natal, São Paulo, com 5.742 metros quadrados de um paredão, na Rodovia Castelo Branco, uma pintura em homenagem ao chocolate. Registros de alguns murais podem ser vistos aqui. Outros trabalhos, como “O Beijo”, mural em Nova York que ficou famoso, foi apagado quatro anos mais tarde, destino histórico dos grafites.

Se murais criados sob encomenda podem ser apagados, imagine grafites e pichações criadas à revelia dos proprietários dos suportes grafitados. Um conflito social gerado desde os primórdios que se desdobrou em racha entre os próprios criadores, estabelecendo-se uma distinção entre grafite, pichação e pixação. Estes últimos permanecem à margem, agindo clandestinamente em ações que vão de pichar o mais alto e inacessível andar de edifício aos monumentos públicos. Houve períodos em São Paulo que pichadores/grafiteiros pediam “patrocínio” de bancas de revista para pintar uma banca, por exemplo. Diante da negativa do proprietário, a banca amanhecia pichada. Situações como essa estão no cerne da mudança até de nomenclatura, ou seja, de grafiteiros que se identificam como artistas urbanos. O pichador é, como na origem, marginal, e o pixador, aquele que faz textos inelegíveis para não iniciados em paredes alheias.

São Paulo. A cidade é do grafite, do mural e do pixo (detalhe no prédio da direita). Crédito: Valdo Resende

Podemos pensar que o início do grafite, lá nos EUA na década de 70, tenha sido um retorno do alfabeto à figura, tornando-o pictórico. A chamada velha escola do grafite usando letras, distorcendo-as e em seguida transformando-as em expressão única: wildstyle, bubble style e 3D. Um retorno marginal e conflituoso iniciado em plena contracultura. O artista em liberdade, fora do estabelecido e do sistema para expressar-se e assumir sua expressão através de “Tags”, assinaturas que se proliferaram rapidamente em solo americano. Muros, estações de trem e os próprios vagões de trens foram suportes que fizeram chegar tais manifestações ao grande público. Os trens pintados atingiam uma imensidão de gente. A ideia espalhou-se em solo americano, e não demorou a espalhar-se para fora do país e do continente. Tanto nos EUA como na Inglaterra, a repressão veio em forma de “limpeza”. As obras eram apagadas, fazendo do grafite uma forma de arte efêmera.

Essa característica, efemeridade, gera no mínimo dois pontos que valem reflexão. Primeiro: ao pintar um vagão de trem, o artista sabia que poderia rever sua obra muito raramente, se é que ela não seria apagada antes que o vagão retornasse ao local onde recebeu a obra. Segundo: o fato de trabalhar em algo que pode ser rapidamente destruído, nos leva a pensar no desapego do indivíduo ao próprio trabalho em função do que ele, artista, quer expressar e no seu distanciamento da arte feita para o mercado. Talvez por isso o grande público – aquele fora dos fãs dessas formas expressivas – tenha dificuldade em identificar os americanos Reas, Shepard Fairey, embora em um ou outro momento possam ter visto imagens de Dalek e Craola. É mais fácil identificar Basquiat, um entre vários que, como Eduardo Kobra, passou pelo grafite ficando famoso.

Jean-Michel Basquiat saiu do anonimato em Nova York espalhando a expressão SAMO (Same old shit), uma espécie de assinatura em trabalhos de forte impacto. Após divulgação desses textos e de tornar-se motivo de artigos jornalísticos, Basquiat pichou Samo is Dead, decretando assim o final de uma fase. Tempos depois já atuava em uma banda e, em seguida, no início dos anos 80, participou da The Times Square Show chamando a atenção da crítica. Logo se tornou artista internacional, expondo ao lado de parceiros como Andy Warhol e desfilando em eventos de moda. Morreu de overdose em 1988. Seu nome e sua forma de ser gerou diferentes produtos, a marca Basquiat comercializada por diversas empresas. No entanto, sua obra permanece e não deixa de ser inquietante, expressando o momento em que viveu, criticando a sociedade na qual estava inserido.

O pixador vai sempre além dos próprios limites, deixa sua marca que é plenamente reconhecida por seus pares. Crédito: Valdo Resende

O grafite, a pichação e a pixação trouxeram inquietações para a contemporaneidade. De quem é a cidade, de quem é a arte? Pressupostos básicos, a cidade é de quem nela habita e a arte é de quem a faz para quem dela quiser usufruir. Não é difícil encontrar paulistanos que nunca estiveram no MASP, na Pinacoteca ou no Instituto Tomie Ohtake, só para citar três locais. A cidade de São Paulo não está isolada neste exemplo. O mesmo pode ser verificado no MOMA, em New York ou no Louvre parisiense. A arte confinada a museus, galerias e afins segrega. Entra quem pode pagar o ingresso e a condução para chegar do distante subúrbio à exposição em evidência; no entanto, mesmo excluído de uma exposição cara, o ser humano tem a necessidade de expressão, de criação.

A Pixação, com x mesmo, é uma das mais intrigantes características da arte urbana no Brasil. Com variados significados culturais e especificações de forma e conteúdo, o pixo feito por jovens brasileiros é distinto, sendo categorizado por região, por cada grande metrópole. O que é escrito nos muros e paredes de São Paulo difere do que é visto no Rio de Janeiro, Salvador, Recife, entre outras. A pixação, que assim grafada identifica um movimento reconhecido no Brasil, tem em seu histórico momentos hilários. Um deles, nos anos 70, quando um criador do cão fila resolveu popularizar a raça pintando porteiras e muros de estrada. Antenor Lara Campos ficou famoso escrevendo “Cão Fila K 26” em plena ditadura militar. Não era nenhum código para derrubar o governo, como pensaram muitos, apenas uma estratégia que popularizou a raça canina.

Os Gêmeos – Mural de 2015 em Nova York. Crédito: Divulgação/Os Gêmeos

O autor alemão Nicholas Ganz, no livro “O mundo do Grafite, arte urbana dos cinco continentes”, já em 2004 assim situava nosso país nesse universo: “São Paulo e Rio de Janeiro são o centro do movimento grafite no Brasil, ostentando grande número de artistas tipográficos elogiados internacionalmente. Apesar de nova, essa cena exerceu a influência mais significativa sobre os estilos mundiais de grafite nos últimos anos”. O autor cita os artistas Vitché, Nina e Herbert, destacando Os Gêmeos – os paulistanos Otavio e Gustavo Pandolfo.

OSGÊMEOS – grafia que também identifica a dupla – viveram a infância no Cambuci, bairro paulistano imortalizado pelo pintor Alfredo Volpi. Adeptos da cultura Hip Hop, os irmãos desenvolveram seu trabalho e cresceram pintando nas ruas, o território dos grafiteiros. Um estilo peculiar fez da dupla artistas reconhecidos que ultrapassaram os limites da cidade e do país em mostras individuais e coletivas por diversos países. As imagens da dupla são facilmente reconhecíveis e, invariavelmente, admiradas por todos.

O grafite ocupa espaço no mundo e esse texto é mera tentativa para que olhem com atenção essas manifestações. O Museu Aberto de Arte Urbana de São Paulo e o Beco do Batman são dois lugares, entre muitos outros – incluindo centros culturais e galerias – para serem visitados na capital paulista e em cidades do mundo todo. Esses artistas estão nas redes sociais, e mesmo quem está na mais distante cidade pode conhecer o trabalho de Mag Magrela, nome pelo qual Carolyna Bárbara Maciel ficou conhecida, sendo uma entre as mulheres que garantem a tradição artística de São Paulo.

Enfim, e não por acaso, retornamos nosso olhar para fora e concluímos com o inglês Banksy, nome que está entre os mais representativos do grafite, ou da arte urbana, como queiram. Com obra reconhecida e facilmente identificável, a identidade do artista é um dos grandes enigmas atuais, alimentando inúmeras conjecturas visando a “grande descoberta”. Cogita-se que seja mera estratégia de marketing, ao mesmo tempo em que há dúvida se tal atitude não seja para garantir a segurança do artista que, com frequência, usa seu talento para ironizar e criticar problemas que o incomodam.

Banksy . 2002. Londres. Talvez a imagem mais popular criada pelo artista /Crédito: Dominic Robinson

Banksy é, inegavelmente, um grande talento, dono de técnica variada e profunda. Suas pinturas e instalações colocam-no além do grafite e reforçam a expressão Arte Urbana para identificar tais ações. Ele ainda mantém a aura dos grafiteiros originais, agindo na surdina e revelando-se via intervenções prontas. Vencido, como todos nós, pelo capitalismo, negocia suas obras e licenças para uso de suas imagens, embora já tenha perdido processo e tenha perdido direitos autorais por recusar-se a se identificar perante um tribunal. Todavia, alimenta o sonho de muitos jovens por aí, interessados em manifestarem-se e, através do próprio trabalho, contribuírem para um mundo, se não melhor, pelo menos com arte de primeira.


*Valdo Resende fez mestrado junto com a comadre citada, Vania Maria Lourenço Sanches. Ele é autor e escritor, publicando regularmente em seu blog.

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