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Múmias, pirâmides e tumbas: Egito Antigo leva o homem a pensar no além

O Egito Antigo é capaz de fascinar diferentes gerações, que demonstram respeito e admiração pela civilização que prosperou às margens do Nilo

Valdo Resende* Publicado em 20/01/2024, às 09h00 - Atualizado em 24/01/2024, às 15h50

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Os templos de Abul-Simbel - Pixabay
Os templos de Abul-Simbel - Pixabay

A descoberta da tumba de Tutancâmon por Howard Carter, em 1922, coincidiu com a popularização do cinema, e falar sobre as maravilhas do Egito, reais e imaginárias, sempre deram grandes bilheterias. Algumas questões valem reflexão: aspectos para ampliar conhecimento, admiração e respeito pelo Egito Antigo.

A história conta e estudiosos refletem sobre as condições geográficas especiais que favoreceram o crescimento dessa, que é uma das maiores civilizações humanas.

Um rio proporciona vida

Dos 6.671km de extensão do Rio Nilo (significa Negro), cerca de 3000 km percorriam o Egito Antigo, chegando a ter 800 metros de largura em tempos de cheia. Um tesouro imensurável considerando que o rio atravessava o imenso Saara africano.

Descendo montanhas do interior do continente, o Rio Nilo era uma incógnita, em tempos que se desconhecia os motivos que levavam a correnteza a diminuir. O certo é que as margens eram bastante férteis e facilitavam as colheitas abundantes registradas até em histórias da Bíblia.

Também é certo que ao encher, o rio "limpava" o caminho, ficando vermelho-escuro e caudaloso, e essas primeiras águas não eram ideais para o consumo. Em pouco tempo, se normalizava e o rio voltava ao que era, um presente dos deuses.

Deserto protetor

A civilização egípcia floresceu às margens de um rio, ladeada por desertos, tendo ao sul uma cadeia de montanhas e ao norte o Delta do Nilo, desaguando no Mar Mediterrâneo. Praticamente isolada, para ser invadida por estrangeiros seria necessário que esses fossem aptos a cruzar desertos, descer montanhas, atravessar os 160 km de extensão do delta para, contra a corrente, invadir o país.

O protetor deserto também era então imprevisível. Pragas vindas sem que se soubesse o real motivo e tempestades de areia modificavam o cotidiano do povo; podiam trazer doenças, morte e a devastação de colheitas. O que leva a presumir que o cidadão egípcio convivia com a transitoriedade da vida: rio e desertos que beneficiavam, mas traziam mensagens que precisavam ser decodificadas.

Preparar-se para depois

A instabilidade da vida levou o povo egípcio a buscar formas de preservar essa, ou garantir-se para viver bem após a morte. O que chamamos hoje de arte do Egito Antigo nada mais é do que ações e preparações do ser humano visando a eternidade. Acreditando em vida após a morte, o egípcio viveu boa parte, ou a maioria da vida em função de preparar-se para o depois.

Detalhe do Livro dos Mortos - Mark Cartwright

Regras religiosas foram elaboradas e, rígidas, tinha como objetivo manter o indivíduo vivo. Técnicas foram desenvolvidas e ensinadas em escolas, sob supervisão da classe religiosa, sendo os artistas vivendo na condição de escravos, ou seja, não havia liberdade de criação. Rigidez de normas e regras em escola são elementos de manutenção de unidades que se alteram muito pouco ao longo dos vários séculos da civilização egípcia.

Evolução arquitetônica

De todos os possíveis e populares enigmas das pirâmides, o que menos se propaga é que elas são fruto de centenas de anos de evolução da arquitetura e resultado de decisões políticas que nem sempre visavam o bem-estar coletivo. Pensadas para guardar o corpo e os objetos de interesse do defunto, vale lembrar uma boa razão para o desenvolvimento desses monumentos que são os túmulos egípcios:

Para o egípcio, o ser humano era composto por corpo, alma e espírito. Simplificadamente, alma seria o que possibilita movimento ao corpo e espírito, o que diferencia o humano do animal. Com a morte física havia a separação entre as três partes. O corpo se tornava rígido e perecível, a alma sairia "a bailar por aí" e o espírito ia a julgamento. Se culpado, o espírito seria extinto; se inocente, voltaria para recuperar alma e corpo e retomar a vida em lugar melhor que nosso planeta. Problemas: como preservar o corpo enquanto durasse o julgamento? Como garantir qualidade de vida lá no outro lugar, ou outra dimensão?

A máscara funerária de Tutancâmon - Pixabay

A mumificação foi desenvolvida para garantir a sobrevida do corpo e os túmulos foram pensados para guardá-lo. "Mum" era uma substância que, segundo os relatos, impedia a destruição do corpo, daí o termo mumificação. Já as pirâmides, que há quem diga serem projetos alienígenas, são fruto de uma longa evolução das construções tumulares humanas.

Colocar o corpo e protegê-lo dentro da terra é tradição que vem da pré-história. Colocar junto ao corpo objetos e pessoas interessantes para o defunto também não foi ideia egípcia. O que os egípcios fizeram foi substituir objetos e pessoas pela representação dos mesmos. Gostas de vinho? Então desenhe e pinte todo o processo para a fabricação do mesmo, sem esquecer de alguns tonéis para abastecimento na entressafra. E assim se dava com tudo o que era de interesse do defunto, sendo que objetos particulares como joias e vestuário acompanhavam o dito cujo. Imensas galerias foram crescendo ao longo do desenvolvimento da civilização egípcia.

A parte superior do túmulo – vale enfatizar aquela fora da terra – seria para os egípcios um sinal para que o espírito, após o julgamento, localizasse o corpo. Tudo começa com a mastaba, em forma retangular. A Mastaba (casa para a eternidade) foi durante séculos a parte visível do túmulo egípcio, sendo gradativamente substituída pela pirâmide escalonada (uma mastaba sobre a outra). Os motivos de termos pirâmides escalonadas no México são para outro texto. Vamos ficar nas pirâmides, que sucedem as anteriores.

Poder e riqueza

As grandes pirâmides foram construídas por dinastias, o que significa que pessoas da mesma família, ao longo do tempo, foram acrescentando detalhes, sessões e a própria história ao monumento. Construídas para guardar o corpo do Faraó, palavra que significa Casa Grande. O Faraó é a casa grande que guarda todo o povo egípcio. Ao morrer o soberano o espírito ia a julgamento, algo que poderia demorar bastante. Além de ser todo o povo julgado com seu soberano, o sistema judiciário do além devia ser bastante lento, pois os vivos não se importavam com a demora da concretização da crença. Até onde sabemos, nenhum Faraó retornou do além para retomar o que é seu.

Uma das fascinantes pirâmides do Egito - Pixabay

A pirâmide de Quéops é exemplo grandioso da arquitetura antiga. Ocupa uma área de 55.611 m² e seu volume é de 2.405.500 m³. Calcula-se que foram utilizados 2.300.000 blocos de pedra; cada face tem 227m e a altura é de 146m. Tudo muito facilitado para governantes que contaram com mão de obra escrava. Guardando em suas galerias imensos tesouros, ao longo dos séculos os túmulos passaram a ser sinais para os inimigos do "Indiana Jones", caçadores de ouro e pedras e o que mais possa ser vendido ou colocado em museu. Para evitar roubos foi que os egípcios criaram os túmulos totalmente submersos, os hipogeus, no Vale dos Reis, onde foi encontrado o túmulo de Tutancâmon. Como se sabe, não deu certo. O pessoal foi lá e levou o que conseguiu.

Colocar três mil anos de história em um único texto é, no mínimo, temerário. Fica aqui um preâmbulo, quem sabe um estímulo para que se estude um pouco mais e não esquecer jamais que o Egito fica na África, nordeste da África. Entender que conhecemos mais a história de seus túmulos porque nossos contemporâneos acharam por bem encher museus com relíquias tumulares, sem pedir licença aos defuntos ou ao próprio povo egípcio, único e verdadeiro herdeiro de joias, múmias, cerâmicas, obeliscos e, sobretudo, a própria história.


*Valdo Resende, mineiro de Uberaba, é mestre em artes visuais, escritor e dramaturgo. Posta regularmente em seu blog. Mora em Santos – SP, onde trabalha na criação de seu próximo romance.

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