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Colunas / Valdo Resende / 'O Pequeno Príncipe'

Onde estão as imagens originais de 'O Pequeno Príncipe'?

As aquarelas pintadas pelo próprio autor, Saint-Exupéry, são reconhecidas em todo o mundo; mas qual foi o destino delas?

Valdo Resende* Publicado em 02/09/2023, às 09h00 - Atualizado em 22/12/2023, às 10h31

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Imagens ilustrativas de 'O Pequeno Príncipe' - Pixabay
Imagens ilustrativas de 'O Pequeno Príncipe' - Pixabay

Em algum momento da vida você, caro leitor, ouviu ou repetiu a frase mais famosa de “O Pequeno Príncipe”: “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas!”. Ou, bem provável, falou outra, tão famosa quanto: “o essencial é invisível aos olhos”.

Mencionadas tais frases e nossa mente, rapidamente, faz vir à tona a lembrança de um garoto loiro de cabelo encaracolado, vestido de verde, gravata borboleta vermelha, morador de um pequeno planeta.

Outra imagem, feito pose oficial, nos mostra um menino todo engalanado, imponente com seu longo casaco azul forrado de vermelho sobre um costume branco, mangas da camisa cheias de babados. Um braço na cintura, outro apoiado em uma espada e não há dúvidas quanto à origem nobre do garoto. A figura desse menino sem nome foi criada pelo também autor do livro, Antoine de Saint-Exupéry.

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A primeira edição foi nos EUA, em 1943 /Crédito: Domínio Público

Com mais de 270 traduções pelo mundo, e mais de 1.300 edições, “O Pequeno Príncipe” fica atrás apenas da Bíblia e do Alcorão e estima-se ter vendido por volta de 150 milhões de exemplares. Em todas as edições estão as ilustrações em aquarela, certamente corresponsáveis pelo imenso sucesso do livro. A força da imagem para a memorização e fixação de fatos, fictícios ou reais, é incontestável.

Pessoas analfabetas que nunca leram a Bíblia ou frequentaram um culto sabem que Jesus Cristo foi crucificado sobre um monte ao lado de outros dois sujeitos, ou que nasceu em uma manjedoura entre animais e pastores.

Basta um relance visual e reconhecem Pelé, Marilyn Monroe e outros ídolos Pop, tanto quanto personagens como He-Man, Batman, Homem Aranha e, é claro, “O Pequeno Príncipe”. Imagens populares que permeiam a nossa mente.

Desenhar e colorir fazia parte do cotidiano do escritor Antoine de Saint-Exupéry que, contam, passava o tempo todo desenhando em qualquer situação e lugar. E ao ser convidado a escrever um infantil, baseou-se em fatos ocorridos consigo para elaborar a história. Um avião em pane cai no deserto do Saara e um solitário piloto, enquanto conserta o aeroplano, é visitado por um menino vindo de um planeta distante, um asteroide entre os tantos que observamos em noites estreladas.

Do nada aparece o garoto que lhe pede que desenhe um carneiro. A partir daí estabelecem uma amizade por cerca de uma semana, trocando histórias e experiências, até ao momento em que o príncipe precisa voltar para casa e, para isso, deve abandonar o corpo. Uma história infantil com uma personagem morrendo no final pode parecer estranho, mas o autor insistiu em manter tal situação. Eram tempos de guerra, e a morte estava rondando por todos os lados. Ele estava certo. O sucesso continua imenso.

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O conde e o príncipe

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“E vi um pedacinho de gente inteiramente extraordinário, que me considerava com gravidade” /Crédito: Domínio Público

Não estranhe a presença de um nobre e a relação de igualdade entre o piloto e o príncipe. Terceiro filho do conde Jean de Saint-Exupéry, nascido em 29 de junho de 1900, em Lyon, contam que Antoine foi incentivado a escrever por sua mãe, a condessa Marie Foscolombe.

Provavelmente o pequenino príncipe se perguntaria o porquê de tantos nomes desse escritor e piloto: Antoine Jean-Baptiste Marie Roger Foscolombe, o conde de Saint-Exupéry, ou como o conhecemos: Antoine de Saint-Exupéry. Escritor e piloto, e desta profissão retirando elementos fundamentais para suas criações literárias.

Deve ter feito parte da vida do garoto de Saint-Exupéry observar as iluminuras medievais em livros da biblioteca familiar. Imagens belíssimas feitas pelos monges copistas ilustrando passagens bíblicas, ou simplesmente decorando as obras luxuosas, em especial as primeiras letras abrindo os capítulos, daí serem chamadas capitulares.

Tendo perdido o pai aos quatro anos, a condessa cuidou da educação dos cinco filhos e desta certamente fez parte as fábulas de La Fontaine. Em “O Pequeno Príncipe”, Exupéry mostra domínio desse gênero no belo e comovente encontro entre a Raposa e o Príncipe, por exemplo. Quanto ao desenho, no início do livro ele nos conta que foi aconselhado a deixar de lado, insinuando não desenhar bem, o que o êxito do livro prova o contrário.

Aquarela é um tipo de pintura com uma longa história, já que encontramos ilustrações utilizando tal técnica desde o Egito Antigo. Em determinadas épocas foram de vital importância, pois através delas artistas retrataram fauna e flora de locais distantes, enviando o resultado de seus trabalhos para os patrocinadores das viagens.

A diluição de pigmentos em água geram imagens suaves, transparentes, delicadas, exigindo do artista um domínio tal que não descaracterize a principal qualidade de uma aquarela: a leveza. Os desenhos de Saint-Exupéry esbanjam tais características.

Livro em tempos de Guerra

A Europa transformada em campo de batalha durante a II Grande Guerra, a França dominada, Saint-Exupéry ficou exilado nos EUA, de 1941 a 1943. Já era um autor famoso, além de respeitado piloto. “O aviador”, “Correio do Sul”, “Voo Noturno”, “Piloto de Guerra” são títulos dos livros que já nos contam da paixão do autor por aeronaves.

Exupéry colaborou na implantação dos correios aéreos em várias partes do mundo, incluindo aqui o Brasil, onde esteve por diversas vezes. Sofreu alguns acidentes aéreos, mas nunca desistiu da ideia de ser piloto e de lutar pelo seu país durante a II Guerra. Todavia, já havia ultrapassado a idade para ser piloto militar. Escreve “O Pequeno Príncipe” durante o exílio e o lança nos EUA em 1943. Os franceses só conheceriam a obra após o final da Guerra.

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“Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!” /Crédito: Domínio Público

Saindo de Nova York para lutar no norte da África após obter autorização para exercer atividade militar, Saint-Exupéry deixou os manuscritos e as ilustrações do livro com Sylvia Hamilton. Uma jornalista amiga (ou, para alguns, amante) que vendeu os originais em 1968 para a Morgan Library e Museum.

Para se ter uma ideia da importância de tais originais, desses consta uma única ilustração que mostra o piloto dormindo ao lado do aeroplano, excluída pelo autor ao compor o livro. Exposições desses originais alcançaram grande sucesso em 2014, em Nova York. Paris só conheceu as 140 páginas que compõem o original de “O Pequeno Príncipe” em exposição realizada em 2022.

Um exemplar do livro, com quatro desenhos e algumas anotações de Exupéry, foi vendido em 2016 para um comprador desconhecido por quase 90 mil euros. O exemplar contém dedicatória do autor para um amigo, Lionel-Max Chassin.

Outro exemplo do interesse do público por tudo que se refere a Exupéry está na biografia da esposa do aviador, Consuelo. Nascida em El Salvador, consta que o casal mantinha o que hoje chamaríamos de relação aberta. É fato que havia conflitos e seria ela base para a Rosa, a personagem do livro que provoca a viagem do Príncipe em busca de respostas.

Entre as excentricidades do casal Exupéry consta terem se decidido a casar durante um voo, e que ela se vestiu de preto em luto pela morte de Enrique Gomez Carrillo, seu primeiro marido. Duas aquarelas originais que ficaram em poder de Consuelo foram vendidas por herdeiros, em 2017, por 520 mil euros.

Exupéry, ao centro, durante uma viagem ao Brasil /Crédito: Domínio Público

Antoine de Saint-Exupéry não viu o imenso sucesso de “O Pequeno Príncipe”. Em 31 de Julho de 1944, decolou da Córsega para um voo de reconhecimento no sul da França. Seu avião nunca retornou. Somente em 1998 foi achado um bracelete com seu nome gravado no verso pelo pescador Jean Claude Bianco.

Depois, em 2004, um mergulhador, Luc Vanrell, encontrou os destroços do caça conduzido por Exupéry. O desfecho foi dado em 2008 quando um ex-piloto alemão assumiu ter sido o autor dos disparos que derrubaram o avião do escritor famoso; o alemão, Horst Rippert, fez questão de pedir perdão à família Saint-Exupéry, o que ocorreu em 2010.

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Exupéry, Zé Perri para brasileiros

Entre as várias passagens de Antoine de Saint-Exupéry pelo Brasil, uma ocorreu em Florianópolis e serviu de inspiração para o curta-metragem “Dás um banho, Zé Perri!”. Direção de Zé Dassilva, com Rodrigo Fagundes interpretando o famoso piloto. Também vale ler a biografia: “Antoine de Saint-Exupéry: vida e morte do principezinho”, de Paul Webster, lançada no Brasil pela Editora Vogais.

Em toda e qualquer menção, só alguns fixaram e reconheceriam facilmente o rosto do autor; todavia, em todas as mentes a imagem em aquarela de O Pequeno Príncipe sempre virá, soberana. E vem o pensamento sobre quem teria dito ao autor que ele deveria buscar outra profissão.

“- Não! Não! Eu não quero um elefante numa jiboia” /Crédito: Domínio Público

O certo é que o mundo ganhou dois presentes: o autor e o ilustrador. Em um mundo que adora divisões e classificações, Exupéry não é pintor, é escritor; e esse escritor sobrepujou e jogou para escanteio o grande ilustrador, artista de primeira. A gente vê os caminhos percorridos pela arte, as mudanças e as posturas sobre o fazer artístico, e cabe duas provocações básicas: A primeira é que entre tantas idas e vindas da arte, o legal não seria que todo pintor tivesse condições de atender a uma criança quando, decidida e imperativa, lhe chegasse pedindo: “Por favor ... desenha-me um carneiro”? A segunda, bem na linha do “só se pode ver com o coração”, aqueles que anonimamente se apoderaram dos originais de “O Pequeno Príncipe” e guardam-nas em cofres escuros, se esqueceram que tais imagens já pertencem a quem ama o principezinho?


*Valdo Resende é escritor e mestre em artes visuais. Trabalhou no aeroporto de Viracopos, quando adorada observar aviões chegando e partindo. Teve um irmão que sonhou ser piloto, a quem presenteou com toda a obra de Antoine de Sain-Exupéry.