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Dandara Santos: o brutal assassinato que chocou o país

Em 2017, vídeos do crime motivado pela transfobia foram divulgados nas redes sociais

Victória Gearini Publicado em 24/10/2020, às 09h00

Dandara Santos, vítima de transfobia
Dandara Santos, vítima de transfobia - Wikimedia Commons

Em 15 de fevereiro de 2017, o assassinato da travesti Dandara dos Santos escandalizou o Brasil. A vítima foi brutalmente executada a tiros no bairro de Bom Jardim, em Fortaleza, no Ceará. Cerca de 16 dias após o crime, imagens e vídeos dela sendo covardemente agredida foram divulgadas na internet. 

Registrada como Antônio Cleilson Ferreira Vasconcelos, aos 25 anos, Dandara mudou-se para São Paulo, onde foi aliciada a prostituição. Em 2008, descobriu ser portadora de HIV, e nesta mesma época, retornou à Fortaleza. Querida pelos moradores da região, passou a trabalhar como vendedora de roupas, até sua vida ser brutalmente interrompida. 

O assassinato

Em 2017, dois vídeos de Dandara sendo torturada foram divulgados nas redes sociais. Em uma das gravações, ela aparece limpando seu rosto ensanguentado com uma camisa amarela. Enquanto está sentada, e pede que parem com a covarde agressão, no entanto, outras pessoas incitam ainda mais o espancamento. 

Já o segundo vídeo é ainda mais forte. Nesta gravação, Dandara é torturada por três homens. Visivelmente machucada, ela é forçada a subir num carrinho de mão, mas não consegue. Entre insultos e humilhações, é agredida com chutes, tapas na cabeça e até mesmo um pedaço de madeira.

Em seguida, ela é colocada dentro do carrinho de mão, por cinco homens. No fim da gravação, a vítima recebe dois tiros e uma forte pedrada na cabeça, ocasionando traumatismo craniano, que resultou em sua morte.

Os acusados

O caso foi investigado pelos delegados Bruno Ronchi Vieira, do 32º Distrito Policial (32º DP) do Bom Jardim, e Arlete Silveira, da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA). Na época, Vieira alegou que os vídeos foram enviados à polícia dois dias após o assassinato de Dandara, mas que, até então, os agressores não haviam sido presos. 

Arlete afirmou que a vítima foi acusada erroneamente de ter praticado roubos e furtos. Sem passagem pela polícia, ela foi torturada, exposta e assassinada por um crime que não cometeu, sendo vítima de ódio e preconceito, como apontou na época a delegada.

As autoridades apreenderam o dono do carrinho de mão, Rafael Alves da Silva Paiva, até então com 21 anos, e um menor de idade. A partir dos depoimentos colhidos de ambos, a polícia identificou os outros agressores envolvidos.

Os assassinos alegaram que Dandara já havia sido agredida anteriormente, sob as mesmas acusações de roubo e furto. Sem demonstrar arrependimento, os acusados disseram, ainda, que o crime foi assistido por diversos moradores do bairro que não interviram. 

Segundo o inquérito policial, cerca de 12 pessoas participaram do crime. Durante as investigações, Manoel Clístenes de Façanha e Gonçalves, titular da 5ª Vara da Infância e da Juventude, revelou, ainda, que as filmagens teriam sido feitas por um dos traficantes mais temidos de Bom Jardim, como forma de divulgar que não toleraria roubos no bairro. 

Os réus foram julgados e condenados separadamente de acordo com a participação no crime. Pela primeira vez na história do sistema judiciário brasileiro um juiz decretou na sentença, a transfobia como motivo torpe e qualificante de homicídio. Em 2018, a defesa de Dandara entrou com uma ação contra o Estado do Ceará, por danos morais causados a vítima e a família.

A repercussão 

O caso foi amplamente compartilhado nas redes sociais. Na época, o coordenador da Diversidade Sexual da Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos de Fortaleza, Paulo Diógenes, repudiou o ato cometido contra a vítima. O prefeito Roberto Cláudio e governador Camilo Santana, também lançaram uma nota e prestaram solidariedade à família e amigos de Dandara.

Em 10 de março de 2017, o Grupo de Resistência Asa Branca (Grab), junto ao Fórum Cearense LGBT e ao Conselho Municipal LGBT, realizou um ato contra LGBTfobia. Na ocasião, os manifestantes prestaram homenagem à Dandara e a outras vítimas de discriminação sexual. Já em 13 de setembro de 2017, o Estado do Ceará instituiu o Dia Estadual de Combate à Transfobia, escolhendo o 15 de fevereiro para homenagear a vítima.

A repercussão foi tão grande, que em 2019 o artista maranhense Rubem Robierb ergueu uma escultura em Manhattan, intitulada "Máquina de sonhos: Dandara". A obra de arte ficou exposta em Nova York, até maio deste ano, sendo transferida, permanentemente, para Miami, na Flórida.

Mais tarde, a policial civil e amiga de Dandara, Vitória Holanda, escreveu o livro Casulo Dandara. Na obra, a autora narra a emocionante trajetória da vítima, desde a infância até seu assassinato. Holanda apresenta, ainda, a repercussão nacional e internacional do caso.


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