Micareta: abadá prêt-à-porter

A micareta, festa que atrai multidões no Brasil inteiro, é invenção francesa

Felipe van Deursen Publicado em 23/06/2009, às 07h35 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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O grande problema do Carnaval é que ele só dura uma semana. Em compensação, no resto do ano, o Brasil é dominado pelas micaretas, as festas fora de época que circulam pelas principais cidades do país, de São Luís a Florianópolis. Mas nenhuma dessas duas celebrações é invenção nossa.

Se o Carnaval já existia na Roma antiga, a micareta é mais jovem. O nome vem do francês mi-carême, que quer dizer "meio da Quaresma". Ou seja, era um festejo realizado pelos franceses do século 15 justamente no meio da Quaresma, o período de penitência imposto pela Igreja Católica que se inicia na Quarta-Feira de Cinzas. Aqui no Brasil, "a micareta ganhou seu formato popular e se tornou uma festa rentável", afirma o historiador André Diniz em Almanaque do Carnaval (Jorge Zahar).

É provável que o primeiro Carnaval fora de época no país tenha sido realizado em Jacobina, na Bahia, há cerca de 100 anos. Em 1950, surgiu o trio elétrico, que permitiu à banda acompanhar os foliões. A  festividade ficou restrita à Bahia até 1989, quando aconteceu a Micarande, em Campina Grande, Paraíba. Nos anos 90, o evento pipocou por todos os cantos e o abadá se tornou o manto sagrado e colorido da perdição.

Para chegar às micaretas, essa roupa fez um longo caminho. A palavra "abadá" vem do iorubá, um dos
idiomas dos escravos africanos trazidos para cá. Originalmente, era um tipo de túnica usada em  cerimônias afro-brasileiras. Depois, o nome batizou a indumentária dos capoeiristas. Em 1993, a Banda Eva homenageou a capoeira ao usar esse nome para designar a camiseta de seu bloco. "Esse
africanismo virou marca do Carnaval de Salvador", diz o antropólogo Eric Maheu. O termo pegou e, hoje, abadá é a camisa que identifica os foliões com direito a ficar mais perto do trio elétrico.