General Vo Nguyen Giap : a raposa do Vietnã

O general Vo Nguyen Giap venceu norte-americanos em batalhas históricas

Fábio Versano Publicado em 01/03/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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No extremo norte do Vietnã, quase fronteira com a China, um senhor magro, de cabelos brancos e cerca de 1,50 m de altura aponta para uma caverna: “Foi ali”. Era dezembro de 1988 e, aos 77 anos, o general aposentado Vo Nguyen Giap retornava a Pac Bo, onde ele e o líder revolucionário Ho Chi Minh, que se tornaria presidente do Vietnã do Norte em 1955, começaram a história de um pequeno grupo sem treinamento militar e com armas velhas que cresceu, virou um exército e derrotou Japão, França, Estados Unidos, Vietnã do Sul, Camboja e China. No fim da II Guerra Mundial, enquanto a França e o Japão lutavam pelo Vietnã, guerrilheiros atacaram os dois e controlaram o norte do país. Partindo do campo, tomaram cidades até chegar a Hanói e declararam a independência. Os franceses não aceitaram, e a Guerra da Indochina se tornou iminente.

O confronto que garantiu a Giap seu lugar na história, em 7 de maio de 1954, teve como palco o vale de Dien Bien Phu, quando a França depôs suas armas para um exército de combatentes de baixa estatura, que usavam sandálias de borracha, não tinham treinamento militar formal e construíam armadilhas de restos de armamentos deixados pelos próprios franceses.

A estratégia do ataque constante

Em 33 anos de batalhas, de 1944 a 1977, o general Giap sempre usou a geografia a seu favor. Preferiu vencer o inimigo pelo cansaço e explorar suas fraquezas, contando com o ódio do povo pelos colonizadores franceses. Escondidos nas montanhas do norte, os revolucionários visitavam aldeias próximas, ajudando no trabalho, alfabetizando e recrutando jovens. Os primeiros 40 aprenderam táticas de guerrilha e receberam educação política para difundir a causa. Em dois anos, havia 3 096 recrutas, 26 campos de treinamento e dez escolas. Quem sobrevivia às batalhas era promovido e submetido a novo treinamento. Simples soldados chegavam a altos postos e havia coronéis semi-analfabetos.

A estratégia era simples: avanços e ataques constantes. O próprio Giap não tinha formação militar, mas chegou a general quatro estrelas por sua capacidade intelectual. Teve mãe analfabeta e pai professor, fazendo parte da reduzida classe média da vila de An Xa, na província mais pobre do Vietnã. Aos 18 anos, ingressou no Partido Comunista. Cursou direito e dava aulas de história. “Eu só ensinava duas coisas: Revolução Francesa e Napoleão”, admitiu Giap ao historiador Cecil B. Currey, autor de Vitória a Qualquer Custo.

Os EUA também se curvam

A derrota da França e a luta do norte comunista para unificar o país no auge da Guerra Fria levaram os Estados Unidos ao conflito. De 1961 a 1974, 1,2 milhão de soldados passaram pelas forças aliadas (EUA, Vietnã do Sul, Coréia do Sul e um pequeno contingente da Tailândia, Austrália, Nova Zelândia e Filipinas), com armas e equipamentos de sobra. Em 30 de janeiro de 1968, no Tet (Ano Novo), os vietnamitas promoveram um bombardeio simultâneo a 5 cidades grandes e 41 capitais de províncias dominadas pelos norte-americanos. O ataque aumentou a pressão nos EUA pela saída das tropas.

As investidas “silenciosas e seguras” de Giap continuavam. Nas aldeias, o inimigo era vigiado por uma rede de trincheiras e abrigos antiaéreos. Minas terrestres e emboscadas foram as causas principais da morte de 58 mil norte-americanos mortos e da mutilação de 300 mil, bem menos que os 3 milhões de militares e civis norte-vietnamitas que tombaram. Foi, porém, o suficiente para fazer o presidente Richard Nixon deixar, em 1973, o conflito para os sul-vietnamitas, que resistiram até 1975. Giap já não estava mais no comando, mas suas táticas se consagraram. Apelidado de “raposa da selva”, o general, hoje com 95 anos, é tido como um dos maiores especialistas em guerrilha de todos os tempos.

 

Camuflados e perigosos: as táticas vietnamitas

A grande arma vietnamita pode ser resumida em uma só palavra: camuflagem. O esquema, operacionalizado pelos coolies (trabalhadores que, além das obras, levavam armas e mantimentos à tropa) contava ainda com:

• Mais de 250 km de túneis com fábricas, hospitais, mercados, campos de treinamento e áreas de armazenamento e trilhas, como a famosa Ho Chi Minh, com cerca de 20 mil km.

• Minas e armadilhas, como a punji – uma cova funda com lanças afiadas de bambu ou metal e lanças menores laterais, disparadas contra os tornozelos.

 

Batalha de Dien Bien Phu

A grande derrocada dos franceses

O vale de Dien Bien Phu era, em 1954, ficava na fronteira entre Vietnã, Laos e China. Ali os franceses montaram seu centro de operações, sob o comando do general Christian Castries. Ele afirmava que o inimigo possuía 49 mil soldados – 10% do número real. Do lado francês, 12 batalhões, seis caça-bombardeiros, um helicóptero, dez carros de combate e armamento pesado. Giap ergueu posições camufladas e trincheiras por 400 km de trilhas nas montanhas. Em 11 de março, Giap lançou 103 mil granadas e atacou com 144 peças de artilharia, 66 obuses e até foguetes soviéticos Katyusha. Após 55 dias, em 7 de maio, os franceses se renderam e amargaram um tratado de paz com o Vietnã.

Para saber mais

Vitória a Qualquer Custo, Cecil B. Currey, Biblioteca do Exército Editora, 2002

Biografia do general Giap escrita por um coronel do exército norte-americano, professor de história militar, especialista em Vietnã.