Marc Ferrez: o fotógrafo andarilho

Marc Ferrez desbravou o Brasil do século 19, levando seu equipamento no lombo de uma mula. Registrou, assim, imagens extraordinárias de todas as regiões do país

Bianca Nunes Publicado em 26/06/2009, às 05h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Era dia de verão no Rio de Janeiro da segunda metade do século 19. O fotógrafo brasileiro Marc Ferrez preparava seu equipamento para mais uma jornada de trabalho. Somados, câmera e placas de negativo de vidro (de 40 x 108 cm) pesavam quase 100 quilos. Pelos tortuosos caminhos de montanhas e elevações cariocas, ele carregava um verdadeiro laboratório fotográfico no lombo de uma mula. Foi assim, desbravando matas e andando por locais inóspitos, que Ferrez se tornou responsável pelo registro de um país em transformação. Hoje, quase 170 anos depois da invenção da fotografia, em janeiro de 1839, sua obra é considerada um dos mais ricos documentos visuais do período.

Ferrez percorreu todas as regiões do Brasil, em expedições governamentais e científicas. Ficou conhecido internacionalmente não apenas por suas panorâmicas, mas também pelas pesquisas na área da fotografia. Por exemplo, com equipamentos adaptados para operar dentro de embarcações. Ele era um apaixonado pelo Rio, que descrevia como "uma cidade de beleza luxuriante e risonha", pelo Brasil e pelas câmeras e lentes.

Filho de franceses, ficou órfão aos 8 anos, em 1851, quando os pais morreram de maneira desconhecida, por envenenamento ou de febre amarela. Depois de uma temporada na França, com um casal amigo, voltou ao Brasil com 21 anos, já interessado em fotografia. Aqui, especializou-se com profissionais experientes, até fundar, em 1867, um ateliê e sua própria marca, a Marc Ferrez & Cia. No ano seguinte, registrou as comemorações do fim da Guerra do Paraguai e começou a trabalhar para o governo. A partir de 1872, passou a se apresentar como "fotógrafo da Marinha Imperial e das construções navais do Rio de Janeiro, tendo como especialidade vistas do Rio de Janeiro e arredores, em todas as dimensões a preços acessíveis".

Incêndio

A maioria dos fotógrafos da época vivia do trabalho com retratos. Ferrez chegou a fazê-los (Machado de Assis, Santos-Dumont, conde d’Eu, etc.), mas não era o que mais o atraía. Gostava mesmo de experimentar, registrar acontecimentos, transformações. "A atividade de documentação de grandes obras públicas e expedições científicas, uma vez bem pagas, podiam ser muito rentáveis. Ferrez não se dedicou ao retrato como outros fotógrafos do seu tempo, mas nem por isso fotografou por amadorismo; ele enveredou por um caminho mais árduo", diz a pesquisadora do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e autora do livro Marc Ferrez, Maria Inez Turazzi.

Árduo não foi só o caminho profissional escolhido por Ferrez. Além da morte prematura de seus pais, ele também enfrentou uma grande perda com um incêndio que destruiu seu ateliê, em 1873, apenas três meses após seu casamento com a francesa Marie Lefebvre. O fogo, segundo os jornais da época, começou junto aos livros e se espalhou pelos frascos dos preparados químicos. Ajudado por amigos, o fotógrafo conseguiu adquirir outro imóvel e abrir um novo escritório, mas perdeu todo o trabalho feito até então. "Foi o momento pessoal mais marcante de sua vida, para alguém que já era órfão e que havia acabado de se estabelecer", afirma Maria Inez.

Outro obstáculo ao trabalho de Ferrez vinha da técnica: uma de suas especialidades, a foto panorâmica, exigia esforço imenso. De acordo com Maria Inez, em artigo no livro O Brasil de Marc Ferrez, na segunda metade do século 19, a panorâmica era muito apreciada, mas poucos estavam dispostos a enfrentar as "dificuldades operacionais e os elevados custos da produção desse tipo de fotografia". Segundo Sergio Burgi, coordenador da área de fotografia do Instituto Moreira Salles, onde está a maior parte do acervo de Ferrez, o processo fotográfico completo, mesmo de imagens em formato convencional, levava cerca de uma hora, para cada foto. "O fotógrafo pensava muito, antes de tomar a decisão de uma foto", diz ele.

Documentarista

Ferrez trabalhou muito. Ao todo, foram 50 anos de registros fotográficos, que depois se estenderam para o cinema - ele trouxe ao Brasil as chapas autocromo, criadas pelos irmãos Lumière para produção de imagens coloridas, e fundou a Companhia Cinematográfica Brasileira, em 1917. Seu reconhecimento no Brasil foi grande e ele chegou a ser professor de fotografia da princesa Isabel.

Para Maria Inez, seu projeto mais importante foi o registro, em 1907, da construção da avenida Central (atual Rio Branco), no Rio de Janeiro. "Ele se jogou de corpo e alma para fazer o álbum. Já tinha larga experiência em produção de imagem de grande formato e esse foi, de certa forma, o coroamento de uma carreira. Pode não ser tão bonito, pois são imagens de prédios, mas, como empreendimento fotográfico, significou o fruto de uma carreira consolidada." Em 1913, porém, uma ressaca na praia do Flamengo invadiu a casa dos Ferrez e destruiu os exemplares do Álbum da Avenida Central estocados no porão.

Após a morte do fotógrafo, em 1923, o neto e historiador Gilberto Ferrez se dedicou ao estudo do acervo, o que contribuiu para sua divulgação no Brasil e no mundo. “Quanto mais o tempo passa, mais a importância de Ferrez como fotógrafo do século 19 aumenta”, diz a bisneta do fotógrafo, Helena Doddi Ferrez, de 60 anos. "Pertencer a essa família me dá muito orgulho. Meu pai [Gilberto] também foi ótimo fotógrafo e pioneiro na valorização do estudo da fotografia no país." O conjunto da obra de Marc Ferrez mostra a vontade quase ufanista de documentar um país em formação, em vez de buscar o "pitoresco", como faziam muitos na época. Ele documentou tudo o que podia: fazendas de café, árvores, plantas arquitetônicas, praias, praças, navios e pessoas que encontrava em suas andanças. Suas imagens formam em nosso imaginário um retrato mais fiel do passado do Brasil.

Olho mágico
O equipamento fotográfico usado por Marc Ferrez

Lente e obturador

Diferentes tipos de lentes podiam ser encaixadas nesse espaço. Para fazer a foto, a lente era destampada por alguns segundos, até quase um minuto.

Pé no chão

O tripé era ajustável, como os de hoje. Do chão ao topo, o equipamento todo mede cerca de 1,50 m a 1,60 m e pesa de 12 kg a 14 kg.

Visor

Na parte de trás da câmera, ficava o orifício de visualização, um quadrado com vidro fosco do tamanho do negativo. Era ali que o fotógrafo observava e enquadrava a imagem.

Porta-filme

Estojo de madeira para o negativo de vidro. A placa de vidro era untada com colódio e colocada no estojo. A revelação era feita numa tenda escura montada ao lado da câmera.

Saiba mais

LIVRO

Marc Ferrez, Maria Inez Turazzi. Editora Cosac Naify, 2001

Perfil do trabalho e da vida do fotógrafo.

O Brasil de Marc Ferrez, vários autores, Instituto Moreira Salles, 2005

Traz diferentes aspectos do seu legado, com cronologia e alguns ensaios do fotógrafo.