O melhor amigo

Companheiros há cerca de 13 mil anos, os cães ganharam centenas de formatos

Tiago Cordeiro Publicado em 06/05/2010, às 05h26 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Melhor Amigo
Melhor Amigo - Arquivo Aventuras

Há 135 mil anos, alguns lobos cinzentos do leste asiático ganhavam características diferentes. Logo eles passariam a acompanhar os hominídeos, ajudando-os na busca de alimentos - e, claro, deliciando-se com as sobras. Com o passar do tempo, no entanto, os cães foram totalmente integrados à rotina humana. De acordo com estimativas mais conservadoras, há 13 mil anos (no mínimo) eles estão completamente domesticados. "A parceria entre seres humanos e cães é uma das mais bem-sucedidas da natureza. É algo extremamente vantajoso para ambos", diz a pesquisadora americana Karen Overall, do Centro de Neurologia e Comportamento da Universidade da Pensilvânia.

Os cachorros acompanharam a humanidade desde as primeiras viagens exploratórias - há quem diga que a travessia pelo estreito de Bering (entre Ásia e América) só foi possível com o suporte deles. São caçadores, protetores e policiais. Ao longo do tempo, desenvolveram a capacidade de se moldar às necessidades do amigo bípede. "Nenhum outro mamífero existe com tal variação de cores, tamanhos, pesos e tipos de pelo", afirma Adam Miklosi, chefe do departamento de Etologia da Universidade Eötvös, na Hungria. São 701 diferentes linhagens (o termo "raças" é incorreto). E o futuro promete que esse número se multiplique exponencialmente.

Para todos os gostos

As principais linhagens e a época em que elas surgiram


5000 a.C. - Força e rapidez
Existem alguns candidatos a primeiro tipo de cão conhecido. O mais forte deles é uma versão do greyhound. Variedades desse animal forte e rápido (corre até 65 km/h) foram localizadas no Egito antigo, no Oriente Médio e no atual Afeganistão.

4000 a.C. - Apoio e comida
Na China, o chow chow é companheiro nas caçadas e o sharpei é colocado em rinhas de luta - ambos também vão para o prato (hoje, de 11 milhões a 13 milhões são consumidos na Ásia por ano). Cerca de 2 mil anos depois surgiriam os pequineses.

3500 a.C. - Nobreza árabe
Cerâmicas do Irã documentam a existência do saluki - cuja imagem está presente em tumbas egípcias de 2100 a.C. Seu porte nobre e sua agilidade na caça conquistaram povos avessos ao animal, como os árabes. Na Índia, os saluki deram origem aos kanni.

1000 a.C. - Companhia no gelo
Fundamentais para os primeiros moradores da região gelada da Sibéria, os huskies siberianos são uma das poucas linhagens ligadas diretamente aos mais antigos antepassados. O nome vem de "eskie", como eram chamados pelos inuits, tribo que habitava a região.

800 a.C. - Moradores de mosteiros
No Tibete, os lhasa apso eram usados como cães de guarda dos monges. Séculos depois, viajantes europeus encontrariam outra linhagem, que batizaram de "terrier tibetano" - ele não é um terrier, mas uma linhagem que remonta aos antepassados da raça.

Século 4 a.C. - Latidos mitológicos
A mitologia grega fala de Cérbero, o cão infernal de três cabeças. Homero cita Argus em sua Odisseia. Os gregos são considerados os primeiros povos ocidentais a tratar os cachorros como parte da família. Platão dizia que o seu era um "amante do aprendizado". Os cães antigos da Grécia dão origem ao atual mastim espanhol.

Século 1 - No pastoreio
As legiões romanas usavam o rottweiler no pastoreio. Em viagens para os recantos da Europa, também descobriram as variedades de hounds e mastifes dos britânicos. Essas linhagens dariam origem a várias outras conhecidas. Dos hounds, por exemplo, saem os beagles.

1000 - Linhagens nobres
Os reis do fim da Idade Média valorizam as raças consideradas puras, cujo cruzamento é estritamente controlado. Os bloodhounds (nome que vem de "sangue puro") ganham coleiras de ouro. Misturados ao mastife e ao antigo buldogue, eles iriam gerar o fila brasileiro.

1880 - Bom companheiro
O labrador começou a surgir no Canadá, na província que ganharia o nome da linhagem. Era uma mistura de cães de origem europeia, incluindo o mastim. Um dos cachorros foi levado à Inglaterra, onde nobres ingleses continuaram fazendo cruzamentos até chegar a esse animal dócil.

1890 - Cão de guarda
O alemão Karl Friedrich Dobermann (1834-1894) tinha um emprego perigoso (coletar impostos) e queria um animal que o defendesse. Ele cruzou pelo menos quatro raças para gerar o dobermann, uma versão gigante do pincher - que existe desde pelo menos o século 15.

1899 - Sob medida
A fim de gerar e identificar novas linhagens, a Sociedade Phylax busca novas espécies para isolar e reproduzir. Um de seus líderes, Max von Stephanitz (1864-1936), anuncia a descoberta mais famosa do grupo: o pastor alemão, criado a partir da mistura de diferentes animais.

2010 - Sem limite
Fazendeiros norte-americanos fazem cruzamentos para criar (e vender) novas raças. A atividade deu origem a labradoodles (labrador com poodle) e cookerpoos (cocker spaniel americano com poodle miniatura).