Pano para manga: Gabriella Pascolato e seu império da moda

A italiana Gabriella Pascolato nasceu aristocrata mas precisou fugir de seu país com o marido, ministro de Benito Mussolini, após a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, construiu seu próprio império da moda.

Ana Paula Alfano Publicado em 01/10/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Nos braços, o filho, Alessandro, um bebê com pouco menos de 2 anos. Costanza, a mais velha, 4 anos, ia a seu lado, no colo da babá, a suíça Blanche Raval. Foi assim que Gabriella Pascolato, 90 anos, cruzou a pé, clandestina, as montanhas que separam a Itália e a Suíça, perto de Lugano. Só sobreviveram à travessia porque estavam no verão. Era março de 1945 e os Pascolato fugiam da caça aos fascistas de seu país, no fim da Segunda Guerra Mundial. Aristocrata e casada com um político influente da Itália, o advogado Michele Pascolato, então ministro de Benito Mussolini, Gabriella foi parar num campo de refugiados. Tomava apenas dois banhos por semana, trabalhava na horta, comia meio pão por dia e convivia com a infestação de piolhos que atormentava a pequena Costanza. “Nunca me lamentei, fiz o que tinha de ser feito”, conta Gabriella, 90 anos. Determinada, ela ainda conseguiu resgatar o marido, que estava escondido na Itália, e embarcar com toda a família para o Brasil, onde abriu a Santa Constância, hoje uma das maiores tecelagens do país.

Em São Paulo, os Pascolato se tornaram grandes amigos dos Matarazzo, freqüentavam as festas da alta sociedade e, depois do sucesso da fábrica, o sobrenome se transformou em referência quando o assunto é moda. Mas até hoje, quando alguém traz à tona o passado político e a relação da família com o fascismo e com o Duce, Gabriella faz questão de explicar: “Nunca tivemos convicções fascistas. Meu marido foi ministro de Mussolini porque a política para ele era um dever. Michele era um idealista, um homem bom, que sempre ajudou muita gente, inclusive judeus.”

HISTÓRIA – Por que seu marido aceitou ser ministro do governo fascista, se não era um fascista?

GABRIELLA PASCOLATO – Os Pascolato tinham uma tradição muito grande em política. O avô do meu marido foi ministro da Agricultura da Itália, em 1903. Nem existia fascismo naquela época. Aos 27 anos Michele foi nomeado governador de Veneza simplesmente porque se chamava Pascolato. Nunca questionei suas decisões, nunca julguei. Para ele, exercer um cargo político era um dever.

E a senhora, o que achava do fascismo?

Não era a favor nem contra. Quando Mussolini assumiu o poder eu era muito pequena. O país tinha sido arruinado pela Primeira Guerra e um partido forte, com as promessas que vinham dos fascistas, parecia uma salvação. Parecia, porque depois eles fizeram muita coisa errada. Eram megalomaníacos, achavam que eram o centro do Universo.

Foi o senso de dever do seu marido que o fez ser voluntário na guerra?

A Itália era tudo para Michele. Ele não seria obrigado a servir na guerra, porque era filho único de mãe viúva. Mas foi mesmo assim para a África, ser piloto, e voltou com uma medalha de prata.

A senhora ficou em casa, esperando ele voltar, sem notícias?

Sim, fiquei numa das fazendas do meu pai, perto de Siena. Tinha também dois irmãos servindo na guerra. Só soubemos que estavam vivos quando eles retornaram.

Não dava medo ter dois filhos no meio da guerra?

A gente não podia parar de viver por causa da guerra. Costanza nasceu três dias depois de a Alemanha invadir a Polônia. Roma também começou a ser bombardeada. Mesmo em Siena, quando Alessandro nasceu, em 1943, eu via as bombas explodirem ao longe.

Seu apartamento em Roma foi saqueado no fim da guerra. Como aconteceu?

Não estávamos mais lá quando soldados ítalo-americanos entraram e roubaram tudo o que podiam. Perdemos muitas coisas. Não tenho mais fotos dos meus avôs, por exemplo, porque queimaram. Havia muito rancor com a aristocracia, quando a guerra acabou. Como se as pessoas com dinheiro merecessem ser perseguidas.

A senhora conheceu o Duce?

Sim, cheguei perto assim como estou de você agora. Sempre foi um contato oficial, em festas ou eventos políticos. Mas o encontrei algumas vezes. Era um homem extremamente sério, com um olhar fanático, que beirava o doente. Parecia uma pessoa com algum distúrbio nervoso, um louco. Eram olhos absolutamente diferentes do seu, do meu, de qualquer pessoa.

A senhora conheceu também a amante dele, Clara Petachi.

Ela tinha o cabelinho muito curto. Foi muito simpática comigo, me recebeu na casa dela. Mas sem saber quem eu era, claro. O arquiteto que projetou a casa era meu amigo e me levou lá, dizendo que eu era uma cliente, que eu ia construir e queria conhecer alguns trabalhos dele. Fui com um nome falso porque ela conhecia o sobrenome Pascolato. Era uma casa muito bonita. Só estranhei que o quarto tinha espelho no teto.

A senhora chegou a estar com Hitler?

Não, porque, quando ele visitou a Itália, eu ainda era noiva. Michele teve de ir a Nápoles, para as cerimônias oficiais, e perguntou se eu queria ir junto. Mas minha mãe achou que, como eu ainda não era casada, não deveria ir.

Qual era sua opinião sobre ele?

Não tinha opinião alguma. Eu achava que não tinha condições de julgar uma pessoa como ele ou como Mussolini. Aliás, nunca julguei uma pessoa por conta de seu cargo político.

Onde a senhora estava no dia em que Mussolini foi fuzilado (28 de abril de 1945). Como recebeu a notícia?

Só soubemos da morte dias depois. Estava no norte da Itália. Comemoraram e lamentaram. Para mim, não significou absolutamente nada. Tanto Hitler quanto Mussolini eram páginas viradas, coisas do passado.

Como foi o período na Suíça?

Eu e Costanza passamos 40 dias num campo de refugiados de guerra. Como o Alessandro era muito pequeno, pôde ficar com Blanche, que era cidadã suíça, na casa de amigos. Mesmo num campo de refugiados, nunca reclamei. Sempre fui muito prática, me preocupei em fazer o que tinha de ser feito. A gente era obrigada a trabalhar, então escolhi trabalhar na horta, para pelo menos ficar ao ar livre. O campo tinha mulheres de nazistas, judeus, rebeldes comunistas iugoslavos, todos convivendo juntos. Aliás, foi dos iugoslavos que a Costanza pegou piolho. Eles eram muito sujos.

Como a senhora teve acesso à lista dos fascistas perseguidos pelo serviço secreto britânico, na Suíça?

Soube que havia uma lista e decidi que tinha que descobrir se o nome do meu marido estava ou não nela. Ele não era fascista, nunca teve convicções fascistas, era um homem justo, honesto e generoso. Mas, como tinha sido ministro de Mussolini, poderia estar na lista. Ele estava em Milão, escondido na casa do cônsul suíço, e teria condição de nos encontrar na Suíça se não estivesse na lista. Juro que não me lembro que mentira contei aos policiais suíços, mas cheguei à delegacia dizendo que precisava ver a tal lista. Devo ter contado uma mentira muito boa, porque eles me deixaram ver o arquivo inteiro, que tinha as fichas em ordem alfabética. Eram todos os funcionários fascistas que não podiam sair da Europa. O nome do Michele não estava lá.

Quando a senhora decidiu trazer a família para o Brasil, tinha a chance de ir também para a Argentina. Por que veio para cá?

Eu sabia muita coisa sobre os dois países. Tive muitas amigas de colégio que tinham família no Brasil. E meu pai já tinha morado na Argentina. Já simpatizava mais com o Brasil, mas me decidi mesmo depois de uma visita ao consulado argentino, na Suíça. Achei eles muito antipáticos. E também tínhamos uma facilidade para conseguir vistos brasileiros, porque conhecíamos uma pessoa amiga da cantora Gabriella Besanzoni, soprano italiana que tinha se casado com um empresário brasileiro, o Henrique Lage, e era muito amiga do presidente Getúlio Vargas. Ela passou os nossos nomes ao governo brasileiro, o meu, do meu marido, dos meus filhos e da Blanche, a nossa governanta suíça (ainda viva, tem 94 anos e mora no Brasil). Assim conseguimos os vistos.

A primeira parada de vocês no Brasil foi no Rio de Janeiro. Só foram para São Paulo por causa da família Matarazzo?

Quando os Matarazzo souberam que os Pascolato estavam no Brasil, nos procuraram para saber como tínhamos conseguido fugir da Itália. O marido de uma das Matarazzo, Virgínia, era prisioneiro de guerra lá. Vim a São Paulo sozinha, Michele ficou no Rio com as crianças, que estavam gripadas. Quando cheguei à cidade, soube que era aqui que tínhamos de viver e falei para o meu marido vir também. Ficamos um tempo hospedados na casa de um Matarazzo que estava viajando. Eles nos cederam até motorista.

O empresário e mecenas Ciccillo Matarazzo foi um grande amigo da senhora?

Sim. Ele era um homem incrível. Na época da construção do pavilhão da Bienal, no parque do Ibirapuera, passava no meu escritório na hora do almoço e eu ia com ele visitar as obras. Vi aquilo nascer.

Atitudes do governo brasileiro refletiram nos negócios da sua família no Brasil. Aliás, foi indiretamente por uma resolução de Eurico Gaspar Dutra que a senhora teve a idéia de abrir a Santa Constância, certo?

Quando cheguei ao Brasil, passei um ano vendendo sapatos Ferragamo no país. Eu era cliente de Salvatore Ferragamo desde os 17 anos. Tinha os pés muito arcados e ele foi o único sapateiro que conseguiu fazer modelos confortáveis para mim. Quando viajamos para cá, ele me ofereceu a representação dos sapatos dele em toda a América do Sul. Deu certo por um tempo, mas em 1946 o Dutra baixou uma medida que controlava a importação de produtos de luxo. Eu não podia mais trazer os sapatos Ferragamo. Conhecia o mercado de moda e sabia que, com as novas tendências de Dior, o New Look, ia faltar tecido nobre no Brasil, para os vestidos. Uma tecelagem seria um ótimo negócio.

Em 60 anos de Santa Constância, qual foi o melhor e o pior presidente para os negócios da tecelagem?

O pior foi, sem dúvida, o governo de Fernando Collor. Ele era muito bonito, mas foi péssimo para o Brasil, deu muito trabalho... Não sei quem foi o melhor. Mas o mais simpático era aquele general, o João Figueiredo, muito gentil. Conheci todos os presidentes.

É verdade que, quando a senhora soube do suicídio de Getúlio Vargas, reparou que o tecido da cadeira onde ele se matou era Santa Constância?

Não apenas o tecido da cadeira. O Palácio do Catete inteiro era decorado com tecidos meus.

A senhora enfrentou preconceito por ser uma mulher à frente dos negócios?

Olha, no começo tentaram ser preconceituosos comigo. Achavam que eu não seria uma boa mulher de negócios. Mas depois todo mundo passou a conhecer minha fama de exigente e séria. Eu era até mais do que o necessário, para poder ser respeitada. E respeitada eu fui.

Em 1953 houve uma greve geral em São Paulo. Como a senhora enfrentou o movimento?

Sempre soube escolher os meus funcionários. Na minha tecelagem a maioria era filho ou neto de imigrante italiano. Houve um dia em que vários sindicalistas pararam na porta da Santa Constância, eu estava na minha sala e ouvia os gritos lá fora. Pois as minhas tecelãs saíram e, com as mãos na cintura, mandaram todo mundo embora. Disseram que nunca tinham sido tão bem tratadas numa empresa e que não iriam parar.

 

Saiba mais

Livro

Gabriella Pascolato – Santa Constância e Outras Histórias, Sérgio Ribas, Jaboticaba, 2007

Nesta biografia autorizada, a empresária fala sobre todos os marcos históricos que vivenciou em seus 90 anos.