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De Clarisse Lispector a Beethoven: 8 figuras históricas que sofriam com transtornos mentais

Confira um panorama sobre personalidades do mundo que apresentaram problemas psicológicos durante a vida

Joseane Pereira Publicado em 24/01/2020, às 09h00

Beethoven
Beethoven - Getty Images

Diversas personalidades históricas sofreram com algum tipo de transtorno mental em determinado período da vida - muitas vezes após alcançar a fama em sua área de atuação.

Confira abaixo oito figuras históricas registradas com algum tipo de problema mental:

1. Imperador Marco Aurélio (161 - 192)

Estátua de Marco Aurélio / Crédito: Wikimedia Commons

 

Apesar de ser conhecido como um governante culto e bem sucedido, que dedicou grande parte da vida a estudar filosofia e era adepto da escola helenística do Estoicismo, o imperador Marco Aurélio - assim como muitos imperadores romanos - tinha seus excessos. Aurélio, que afirmava ser a reencarnação do herói grego Hércules, ordenava a seus devotos que cortassem o próprio braço e a sacerdotes que surrassem o próprio peito até sangrar.

Nos anfiteatros romanos, de seu camarote privado, o imperador atirava flechas em suas vítimas e, durante jogos recreativos, promovia caças a avestruzes -- sua diversão era cortar a cabeça dos bichos e vê-los correr decapitados.

Tais atos fizeram historiadores classificarem-no com algum tipo de problema mental. Segundo o historiador inglês Vivian Green em A Loucura dos Reis, "Marco Aurélio provou ser um expoente entusiasta de seu papel, pois tinha um apetite tão insaciável por derramamento de sangue que suas ações só podem ser vistas como fruto de uma mente doente". Apesar disso, os atos de seu filho Cômodo, conhecido como O Gladiador, ficaram mais conhecidos historicamente.


2. Isaac Newton (1643 - 1727)

Retrato de Isaac Newton / Crédito: Wikimedia Commons

 

Matemático, físico e inventor inglês que desenvolveu a Lei da Gravitação Universal, Newton sofria com alucinações, crises de ira e transtornos psicóticos. Vivia recluso, realizando experiências como enfiar um palito de dentes no olho em um quarto escuro para verificar teorias sobre propagação da luz.

E algo constatado longamente em relatos de infância e velhice é o fato do cientista ser cronicamente solitário, passando a maior parte do tempo imerso em seus pensamentos. Registros de época atestam que a convivência com o cientista era muito difícil pois ele mudava seu humor a todo instante, característica que pode ser identificada como transtorno bipolar.


3. Maria I de Portugal (1734 - 1816)

Retrato de Maria I / Crédito: Wikimedia Commons

 

Mais conhecida como Maria, a louca, a mãe de dom João VI foi rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves de 1815 até sua morte. Aos 47 anos, começou a ter pesadelos e visões com seu falecido pai. Seu declínio mental se tornou público no início da década de 1790 quando ela teve um surto em um teatro de Lisboa, o que segundo relatos tinha caráter religioso. No começo, seus ataques eram curtos e explosivos, com insultos a seus confessores e pavor de crucifixos e de lugares sagrados. Tinha visões do diabo a espionando e achava que estava condenada à perdição eterna.

Em 1792, decidiu-se por chamar o médico Francis Willis, que ficara conhecido por seu tratamento de choque com George III, que incluía o uso de camisa-de-força e de purgantes. Ao que consta, ele teria recebido a quantia de 20 mil libras esterlinas, o equivalente a aproximadamente 4 milhões de reais atuais, para curá-la, mas não conseguiu reverter a situação. No fim do tratamento, propôs levar a rainha para a Inglaterra como parte de uma jornada terapêutica marítima.


4. Ludwig Van Beethoven (1770 - 1827)

Retrato de Ludwig Van Beethoven / Crédito: Wikimedia Commons

 

Beethoven foi durante toda a vida considerado uma criatura completamente indomável. Relatos indicam que, por conta da redução auditiva causada após ter sido espancado por seu pai na infância, Beethoven teria pensado muitas vezes em suicídio. Apesar de ser intenso, enérgico e com muita disposição, em certos momentos o músico entrava em estados de depressão profunda, agravados pelo seu vício em álcool e ópio. 

As suas composições eram criadas sem a preocupação em respeitar regras seguidas pelos músicos da época, o que gerou a ideia de que o início da Sinfonia nº5 em Dó Menor, que escreveu em 1808, era uma evidência da sua loucura. Também tinha um humor negro e o espírito sarcástico.


5. Edgar Allan Poe (1809 - 1849)

Retrato de Edgar Allan Poe / Crédito: Getty Images

 

Autor de contos de terror que teve uma vida permeada por vícios, mistérios e loucura, esse poeta estadunidense criou uma série de personagens, como William Wilson, que tinham transtornos mentais. Sua própria vida foi um romance mórbido, com um espírito desequilibrado e uma alma atribulada que o faziam se render constantemente ao álcool. Em algumas cartas, Poe relata experimentar pensamentos suicidas, e há quem diga que o autor sofria de grave transtorno bipolar.

Em janeiro de 1847 sua prima e esposa  Virginia falece, o que gera em Poe uma profunda depressão e o refúgio na embriaguez, durante seu ano menos produtivo em trabalhos literários.


6. Charles Darwin (1809 - 1882)

Charles Darwin /Crédito: Wikimedia Commons

 

O célebre biólogo inglês, famoso por sua obra A Origem das Espécies de 1859, além de escrever em seus diários e cartas os resultados de viagens e experiências científicas, escrevia também como estava se sentindo. Entre os sintomas registrados nas mais de 400 cartas em que fala sobre sua saúde, estão insônia, perda de consciência e sensação de morte iminente.

Após retornar das Ilhas Galápagos, viagem que o fez começar a desenvolver sua Teoria das Espécies, Darwin se tornou um recluso. De acordo com especialistas, o cientista sofria com transtornos de ansiedade, síndrome do pânico e agorafobia (medo de estar em grandes espaços abertos ou atravessar lugares públicos).


7. Santos Dumont (1873 - 1932)

Santos Dumont / Crédito: Wikimedia Commons

 

Aeronauta e inventor brasileiro famoso mundialmente pelo seu 14 Bis, Dumont se suicidou aos 59 anos num banheiro de hotel do litoral paulista. Seus biógrafos não concordam inteiramente sobre as causas do suicídio, mas alguns dizem tratar-se de depressão profunda ou neurastenia (perda de interesse pela vida, fadiga extrema, longos estados de inatividade e pessimismo).

Cartas trocadas com amigos, recibos de farmácia e comprovantes de consulta médica mostram que Dumont empreendeu uma longa batalha para manter-se lúcido, inclusive se internando em clínicas de repouso europeias e procurando influentes psiquiatras brasileiros.

Após uma tragédia em 1928, quando alguns amigos decidiram saudá-lo com um sobrevôo acima do navio que o trazia da Europa e acabaram morrendo em uma queda, suas crises se agravaram. Em 1931, registra: "É a primeira carta que escrevo depois de ficar dois meses de cama. Talvez amanhã vista roupa e botinas".


8.  Clarice Lispector (1920 - 1977)

Clarice Lispector / Crédito: Wikimedia Commons

 

Escritora ucraniana naturalizada brasileira, Lispector presenteou a humanidade com ensaios, contos e romances brilhantes. Após sofrer queimaduras graves no braço e na mão por ter dormido com um cigarro aceso, Clarice acabou desenvolvendo depressão, também tendo depressão pós-parto com o nascimento de seu filho Pedro, que viria a ter esquizofrenia.

Em sua última entrevista, concedida em 1977 ao programa Panorama da TV Cultura, a própria autora dá pistas sobre seus transtornos. Quando perguntada sobre sua morte e renovação a cada processo criativo, a autora responde: "Bom, agora eu morri, vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta, estou falando de meu túmulo". Também nessa entrevista, a autora demonstra cansaço e raiva de si mesma.


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