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Desventuras / Personagem

A curiosa carta que Marx enviou para Lincoln

A mensagem foi escrita em novembro de 1864, no auge da Guerra Civil Americana

Redação Publicado em 05/06/2022, às 08h00

À esquerda, Marx; à direita, o presidente Lincoln - Domínio público / John Jabez Edwin Mayall / Instituto Internacional de História Social; Getty Images
À esquerda, Marx; à direita, o presidente Lincoln - Domínio público / John Jabez Edwin Mayall / Instituto Internacional de História Social; Getty Images

No ano de 1864, o teórico alemão Karl Marxescreveu uma carta para o presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, que havia acabado se se reeleger para o cargo. No texto, o filósofo parabeniza o americano por sua vitória e trata sobre questões como a escravidão e a luta operária.

“Senhor, felicitamos o povo americano pela sua reeleição por uma larga maioria. Se a palavra de ordem reservada da sua primeira eleição foi resistência ao Poder dos Escravistas [Slave Power], o grito de guerra triunfante da sua reeleição é Morte à Escravatura", dizia Marx em novembro daquele ano.

A carta, conforme informou o portal da revista Movimento, foi publicada pela primeira vez no dia 7 de janeiro de 1865, no Bee-Hive Newspaper. 

É importante destacar que o documento foi escrito em uma época em que a Guerra Civil se encontrava no auge e Marx faz referências a esse contexto ao longo da mensagem. 

De acordo com a fonte, o texto foi escrito a partir de uma decisão do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores e comentava as mudanças nos EUA sob uma visão da luta das classes.

Guerra civil e os operários da Europa

"Desde o começo da titânica contenda americana, os operários da Europa sentiram instintivamente que a bandeira das estrelas carregava o destino da sua classe", escreveu o filósofo, que, em seguida, comenta acerca da disputa entre aqueles que defendiam um novo modelo, baseado no trabalho assalariado, e aqueles que desejavam manter a escravidão.

Estátua de Karl Marx em Trier, na Alemanha / Crédito: Getty Images

"A luta por territórios que desencadeou a dura epopeia não foi para decidir se o solo virgem de regiões imensas seria desposado pelo trabalho do emigrante ou prostituído pelo passo do capataz de escravos?"

"Quando uma oligarquia de 300 000 proprietários de escravos ousou inscrever, pela primeira vez nos anais do mundo, “escravatura” na bandeira da Revolta Armada, quando nos precisos lugares onde há quase um século pela primeira vez tinha brotado a ideia de uma grande República Democrática, de onde saiu a primeira Declaração dos Direitos do Homem e de onde foi dado o primeiro impulso para a revolução Europeia do século XVIII."

"Quando, nesses precisos lugares, a contrarrevolução, com sistemática pertinácia, se gloriou de prescindir das “ideias vigentes ao tempo da formação da velha constituição” e sustentou que “a escravatura é uma instituição beneficente”, [que], na verdade, [é] a única solução para o grande problema da «relação do capital com o trabalho” e cinicamente proclamou a propriedade sobre o homem como “a pedra angular do novo edifício”

"Então, as classes operárias da Europa compreenderam imediatamente, mesmo antes da fanática tomada de partido das classes superiores pela fidalguia [gentry] Confederada ter dado o seu funesto aviso, que a rebelião dos proprietários de escravos havia de tocar a rebate para uma santa cruzada geral da propriedade contra o trabalho e que, para os homens de trabalho, [juntamente] com as suas esperanças para o futuro, mesmo as suas conquistas passadas estavam em causa nesse tremendo conflito do outro lado do Atlântico."

Estátua de Abraham Lincoln / Crédito: Imgem de Monica Volpin por Pixabay

"Por conseguinte, suportaram pacientemente, por toda a parte, as privações que lhes eram impostas pela crise do algodão, opuseram-se entusiasticamente à intervenção pró-escravatura — importuna exigência dos seus superiores — e, na maior parte das regiões da Europa, contribuíram com a sua quota de sangue para a boa causa", dizia Marx, referindo-se à crise provocada pela cessação do fornecimento de algodão vindo dos EUA.

Operários e escravizados

Em seguida, o autor do Manifesto do Partido Comunista, aponta que "os operários," aqueles que eram "as verdadeiras forças políticas do Norte, permitiram que a escravatura corrompesse a sua própria república "foram incapazes de atingir a verdadeira liberdade do trabalho ou de apoiar os seus irmãos Europeus na sua luta pela emancipação".

No entanto, para ele, "esta barreira ao progresso foi varrida pelo mar vermelho da guerra civil." O teórico escreve que "os operários da Europa sentem-se seguros de que, assim como a Guerra da Independência Americana iniciou uma nova era de ascendência para a classe média, também a Guerra Americana Contra a Escravatura o fará para as classes operárias."

"Consideram uma garantia da época que está para vir que tenha caído em sorte a Abraham Lincoln, filho honesto da classe operária, guiar o seu país na luta incomparável pela salvação de uma raça agrilhoada e pela reconstrução de um mundo social", finaliza o teórico.