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No Dia da Consciência Negra, colégio posta foto de 'blackface' de alunos

Prática é considerada racista por ser uma forma caricata de uma pessoa branca se “fantasiar” como uma negra

Fabio Previdelli Publicado em 20/11/2021, às 12h42

Estudante do colégio fazendo 'blackface'
Estudante do colégio fazendo 'blackface' - Divulgação/Redes Sociais/Colégio Adventista

Para celebrar o Dia da Consciência Negra, uma escola em Gurupi, na região sul do Tocantins, publicou, em suas redes sociais, imagens de estudantes com o rosto pintado com tinta preta e usando perucas que simulam o black power. 

"Dia 20 de novembro comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra. E hoje nossos alunos vieram caracterizados para comemorarmos este dia tão importante e para refletirmos o quanto Deus nos tornou irmãos e que perante Ele, somos todos iguais. Me conta aqui nos comentários se você gostou da caracterização dos nossos alunos", dizia um post publicado nas redes sociais da escola.

Conhecida como blackface, a prática é considerada racista por ser uma forma caricata de uma pessoa branca se “fantasiar” como uma negra, visto que, há anos, a caracterização foi usada de forma pejorativa e para servir como entretenimento de brancos. (Saiba mais sobre o blackface no fim desta notícia).

Com isso, movimentos negros e antirracistas publicaram uma nota de repúdio contra o Colégio Adventista, que se defendeu dizendo que não pintou e nem estimulou os alunos para que se pintassem. Posteriormente, após a repercussão negativa, o centro de ensino se desculpou em nota. Confira na íntegra!

"A direção do Colégio Adventista de Gurupi esclarece que é contrário a todo e qualquer tipo de discriminação racial. O Colégio ressalta que o projeto pedagógico do Dia da Consciência Negra, realizado com as turmas do 4º e 5º ano, teve como objetivo valorizar a cultura negra e afrodescendente na escola e fora dela assim como promover a reflexão e resgate da identidade negra.

O Colégio incentivou os estudantes a celebrarem de forma livre esse importante dia com respeito e admiração pelas pessoas. Em nenhum momento, os estudantes foram pintados ou estimulados a pintarem o rosto.

O Colégio pede desculpas pela situação que se criou e se compromete a proporcionar mais momentos com discussão sobre o tema. Com isso, a ideia é contribuir para promoção de uma sociedade cada vez mais livre de preconceitos".


O que é blackface?

Provavelmente você já deve ter escutado o termo “blackface”. A prática consiste em uma pessoa fenotipicamente branca pintar o corpo com o intuito de escurecer a pele. Com pelo menos 200 anos, o blackface era muito comum no passado e até mesmo aceito por grande parte da branquitude.

Mas afinal, você sabe como surgiu esta prática e por que ela é considerada racista? Se a resposta for não, o site Aventuras na História explica o porquê desta prática ser tão ofensiva e o motivo para a sociedade nunca mais reproduzi-la. 

A origem 

Estima-se que o blackface tenha sido criado por volta de 1830, em Nova York, nos Estados Unidos. Na época, era comum que atores brancos pintassem seus corpos para representar personagens negros. Mas você deve estar se perguntando: por que não utilizavam artistas negros? A resposta é simples e lastimável: por conta do racismo. 

Na época, o teatro era somente feito por pessoas brancas. Já a população negra era proibida de subir aos palcos. Por outro lado, seus corpos, vivências e culturas eram ridicularizados pela branquitude, num verdadeiro “festival” de horrores. 

Já no século 20, começaram a surgir alguns atores negros. Contudo, o blackface continuou sendo utilizado por pessoas brancas. Por exemplo, em 1965, o ator britânico Laurence Olivier, escureceu o tom de sua pele para interpretar Otelo, de Shakespeare.

Laurence Olivier interpretando Otelo, de Shakespeare / Crédito: Divulgação / BRITISH HOME ENTERTAINMENT

 

Outro exemplo emblemático de blackface na TV foi feito no programa The Black and White Minstrel Show. Entre 1958 e 1978, o programa chegou a ganhar o prêmio Golden Rose of Montreux, em 1961.

Vale ressaltar, que embora tenha surgido por volta de 1830, é possível perceber os primeiros indícios de blackface desde os tempos de Shakespeare, quando pessoas brancas já escureciam o tom da pele.

A luta antirracista 

Ao longo das décadas, movimentos antirracistas ganharam força ao redor do mundo. O que antes era visto como símbolo de “entretenimento”, passou a ser repudiado e visto como algo racista. 

Em entrevista à BBC, o professor de Black Studies na Escola de Ciências Sociais da Birmingham City University, Kehinge Andrews, explicou que a prática é altamente ofensiva, uma vez que incorpora estereótipos negativos sobre pessoas negras. 

"O blackface tem raízes no racismo, que está ligado ao medo de pessoas negras e à ridicularização delas", explicou o professor.

Mesmo com todas as problemáticas envolvendo esta prática, ainda hoje, existem algumas pessoas que não conseguem enxergar a gravidade do assunto. Há quem veja o blackface como uma forma aceitável de entretenimento, reforçando o pacto da branquitude e legitimando o racismo. 

Programa The Black and White Minstrel Show / Crédito: Divulgação / BBC

 

Conforme os especialistas ouvidos pela BBC, em 2019, muitas pessoas que já fizeram blackface no passado não tiveram a intenção de ofender. Contudo, mesmo assim é importante resgatar a origem desta prática e compreender o racismo por trás dela, para nunca mais reproduzi-la.