Armas: inteligência artificial

Conheça a novíssima geração de armas inteligentes fabricadas para minimizar riscos, cortar custos de manobras e, claro, vencer guerras

Carlos Emilio di Santis Junior Publicado em 01/02/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Nos noticiários, quando o assunto são guerras, um termo chama cada vez mais atenção: “armas inteligentes”, aquelas com “precisão cirúrgica” para evitar “efeitos colaterais” – as vítimas inocentes. Foi durante a Segunda Guerra Mundial que os Estados Unidos começaram a desenvolver artefatos guiados, usando a tecnologia de radiocontrole, também tentado pelos alemães, porém com eficácia reduzida em função das limitações da época.

Muito se evoluiu desde então, e bombas e mísseis guiados por sistema de TV foram usados durante as guerras da Coréia e do Vietnã. As armas ar-terra guiadas foram desenvolvidas com o uso de muitas variações de sistemas, sendo as bombas guiadas a laser as mais conhecidas, dada a precisão apresentada em ataques contra alvos mais difíceis. Um exemplo interessante sobre o ataque com armas inteligentes e outro com bombas convencionais, ou “burras”, foi o bombardeio à ponte norte-vietnamita de Thanh Hoa, em 1972, durante a Guerra do Vietnã. A estrutura manteve-se de pé depois de 800 ataques aéreos convencionais dos americanos. Mas bastou uma investida executada por caças McDonnell Douglas F-4 Phanton II, armados com as primeiras bombas de 900 quilos guiadas a laser, para pôr a ponte abaixo.

Por isso as armas guiadas, também chamadas de inteligentes, permitem economia nos custos de um ataque. Apenas um ou dois aviões, transportando duas ou quatro bombas do tipo, executam uma missão com mais eficiência do que um esquadrão de bombardeiros da Segunda Guerra que despejava toneladas de explosivos para destruir um alvo.

A FAMÍLIA PAVEWAY

Embora a Rússia e a França produzam artefatos guiados a laser, as bombas americanas da família Paveway, fabricadas pela Raytheon, são as mais bem-sucedidas entre as que foram testadas até hoje. Desde o primeiro lançamento, em 1965, essas armas estiveram presentes em todas as guerras de que os Estados Unidos participaram.

Entre as versões dessa bomba que estão e continuarão em uso por muitos anos está a GBU-12 Paveway II, de 227 quilogramas, que estreou em 1976. Com as atualizações, hoje ela pode ser guiada por laser ou por Global Positioning System (GPS), a nova vedete entre os sistemas de guiagem de armas ar-terra, graças a sua capacidade de atingir o alvo com margem de erro inferior a dez metros em qualquer condição atmosférica ou de visibilidade. O alcance de planeio de uma bomba da família Paveway II é de aproximadamente 15 quilômetros, dependendo da altitude e velocidade do lançamento.

Por causa do pequeno peso e tamanho da GBU-12, seus alvos são, normalmente, canhões de artilharia, radares, blindados e pequenas edificações não-fortificadas. Outra versão é a GBU-24 Paveway III, cujo kit possui um novo desenho aerodinâmico para maior alcance de planeio. Seu alvo pode ser destruído a cerca de 30 quilômetros, dependendo da altitude e da velocidade do lançamento.

A GBU-24 pesa 907 quilogramas e seus alvos são bunkers, prédios e edificações de alto valor estratégico. O sistema Paveway III pode ainda usar uma bomba BLU-116 penetradora para destruir alvos subterrâneos reforçados. Assim como as versões modernizadas da GBU-12, a GBU-24 também faz uso de um sistema de guiagem composto por laser e GPS.

O mais recente membro da família é a novíssima Paveway IV, encomendada pelo governo britânico à Raytheon para equipar seus caças Harrier GR-9 e Typhoon, além dos futuros caças Lockheed F-35 B Lightning II. A Paveway IV é um artefato de emprego geral baseado em uma bomba MK-82 de 227 quilogramas, como a GBU-12, porém com um incremento no alcance e na capacidade de penetração contra alvos duros. Sua guiagem por GPS/INS e laser permite um aumento da precisão.

INFLUÊNCIA CLIMÁTICA

A despeito da precisão das bombas guiadas a laser, elas possuem uma séria restrição que ficou evidente na Primeira Guerra do Golfo, em 1990. Seu sistema de guiagem utiliza um apontador/designador de alvos, um feixe de laser que os ilumina para que o sensor os identifique.

Quando ocorrem problemas de visibilidade, esse sistema é prejudicado. As tempestades de areia e as negras torres de fumaça dos poços de petróleo iraquianos incendiados pelo Exército de Saddam Hussein foram alguns dos problemas enfrentados pelos pilotos.

Um novo tipo de guiagem baseado no GPS foi desenvolvido na forma de kits que se montam em artefatos convencionais, transformando as bombas “burras” em modernas bombas inteligentes, capazes de destruir um alvo com margem de erro de menos de dez metros e sem restrição de visibilidade. A primeira arma desse tipo foi a Joint Direct Attack Munition (JDAM), entregue em 1997 e desenvolvida pelo departamento de armamentos avançados da Boeing. O kit JDAM é composto por um sistema de navegação que recebe informação de satélites de GPS e outro de controle para que a bomba possa manobrar até o alvo.

O sistema JDAM é compatível com todas as bombas-padrão da série MK-80 e a bomba penetradora BLU-109 da Força Aérea dos Estados Unidos. Inicialmente, as bombas com sistema JDAM conseguiam uma margem de erro de menos de dez metros a um alcance de até 24 quilômetros. Porém, depois de um programa de modernização da Boeing, a JDAM ganhou uma versão chamada de LJDAM – o “L” vem de laser, sistema que foi integrado às JDAM, permitindo margem de erro de meros três metros do ponto de impacto previsto, e capaz até de destruir alvos em movimento.

Uma nova bomba planadora, conhecida como AGM-154 JSOW (Joint Standoff Weapon), tem como objetivo atingir alvos em maiores distâncias possíveis. Seu fabricante é a Raytheon, que também faz as bombas guiadas a laser Paveway. A JSOW possui asas retráteis e uma aerodinâmica que visa a um substancial aumento do tempo de planeio e, conseqüentemente, de alcance. Se lançada de grandes altitudes, a JSOW cobre 120 quilômetros.

Existe ainda uma versão equipada com um propulsor para atingir alvos a cerca de 300 quilômetros, a JSOW-ER (Extended Range, ou alcance estendido). As bombas JSOW possuem diversas configurações de ogivas. Podem ser de fragmentação (AGM-154 A), composta por 145 pequenas bombas destruidoras de blindados, muito úteis contra colunas de tanques ou alvos múltiplos espalhados. Podem ser do tipo antiblindagem (AGM-154 B), em que a ogiva é composta por seis submunições BLU-108 B, no qual cada uma lança quatro projéteis de altíssima velocidade guiados pelo calor. E há também a carga unitária (AGM-154 C), cuja ogiva de dois estágios do tipo Broach ou carga moldada é capaz de penetrar blindagem de concreto e destruir alvos reforçados.

Mas a maior novidade no segmento das armas inteligentes é uma das menores bombas já desenvolvidas, e cujo conceito revolucionará ainda mais a capacidade de ataque e bombardeio dos Estados Unidos e das nações que adquirirem a nova arma. Trata-se da bomba GBU-39 SDB (Small Diameter Bomb), produzida pela Boeing e que pesa apenas 130 quilogramas. Essa bomba é guiada por GPS/INS, tem uma margem de erro de cinco metros e é capaz de atingir um alvo a 110 quilômetros.

O objetivo das bombas SDB é proporcionar maior capacidade de transporte de bombas por caça de combate. Para se ter uma idéia do ganho de poder de fogo que um caça pode ter com essa arma, basta dizer que o F-22 Raptor, que transporta suas armas em uma caixa de armas interna, é capaz de transportar apenas duas bombas do tipo GBU-32 JDAM, de 454 quilogramas, e dois mísseis de médio alcance. Com a SDB, o F-22 pode transportar até oito bombas na mesma caixa de armas. Em testes, a SDB demonstrou grande capacidade de atravessar a blindagem de bunkers reforçados e destruir alvos dentro dele. Outro benefício notável dessa arma é a excelente capacidade de evitar “danos colaterais” em edificações vizinhas ou vítimas inocentes próximas ao alvo.

A ENGENHARIA EUROPÉIA

Não são somente os Estados Unidos que possuem novidades na área de bombas inteligentes. Os franceses, por meio da Sagem Defense, desenvolveram uma bomba planadora guiada por sistema híbrido GPS/INS, chamada Armament Air Sol Modulaire (AASM), que, como a americana JSOW, também pode ser propulsada, além de simplesmente planar até o alvo. Existem duas versões da AASM: uma é guiada apenas por GPS, com uma margem de erro de dez metros, na mesma faixa que se consegue com a JDAM americana, enquanto a outra conta com um sensor IR que permite uma margem de erro de um metro. Se lançada de grande altitude, o alcance chega a 50 quilômetros.

O progresso tecnológico permitiu que, hoje, aviões desenvolvidos para combate aéreo executem missões de bombardeiro de precisão com a mesma eficiência dos antigos aviões de ataque ao solo especializados das décadas de 1970 e 1980. Assim, as novas armas inteligentes permitem que um avião de combate seja usado para missões de bombardeio e confronto aéreo, criando um efeito multiplicador da força de combate na esquadrilha.

 

Para saber mais

SITES

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Especializado no estudo estratégico de forças armadas e seus equipamentos.

www.fas.org

Trata dos equipamentos militares utilizados no mundo todo.