Montparnasse é uma festa

No começo do século 20, um bairro agrário de Paris virou ponto de encontro de artistas exilados de todos os cantos

Mário Araújo Publicado em 08/12/2009, às 05h35 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

No início do século 20, Paris era socialmente dividida pelo rio Sena. Do lado direito ficava a área nobre, que incluía Montmatre, o bairro dos artistas consagrados como os pintores Paul Cézanne e Claude Monet. Já do lado esquerdo, em Montparnasse, conviviam matadouros, bordéis e pontos de venda de éter e cocaína. Foi ali que uma geração inteira de artistas pobres de vários lugares do mundo escolheu para viver. Cercados por prostitutas e carneiros, eles puderam criar com liberdade muito maior que em seus países natais.

O bairro em transformação fornecia pequenos ateliês e quartos claustrofóbicos, mas muito baratos, e cafés e livrarias que se tornaram pontos de encontro. Entre os artistas cuja história está ligada a Montparnasse estão os escritores Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald e James Joyce, os pintores Modigliani e Picasso e os poetas Jean Cocteau e Guillaume Apollinaire. Dos anos 20 aos 40, eles fizeram do bairro o epicentro de um terremoto cultural - e assim ele permaneceria, após a Segunda Guerra, graças a uma nova geração, formada por nomes como o escritor André Gide e a filósofa Simone de Beauvoir.

Endereços acolhedores
Todos se encontravam nos mesmos seis lugares

Bordel Martoune

Boulevard Edgar-Quinet, 31

Um dos bordéis de luxo mais exclusivos de Paris ficava nos arredores do cemitério do bairro e funcionava em um prédio de quatro andares. As funcionárias não precisavam se prostituir, desde que incentivassem o consumo de bebidas. Seu frequentador mais notório era o escritor Henry Miller. Hoje um parque fica no local.

Café Le Dome

Boulevard Montparnasse, 108

Fundado por Paul Chambon em 1897, existe até hoje. No melhor estilo dos cafés parisienses, tem mesas na calçada e um salão escuro dentro. Lugar intimista, era muito procurado pelo pintor búlgaro Jules Pascin e pelos escritores Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway - na época, o primeiro, já famoso, dava conselhos ao segundo.

Café La Rotonde

Boulevard Montparnasse, 105

Aberto em 1911 por Victor Lebion em frente ao Le Dome, era agitado e barulhento. Ali, personalidades passavam os dias entre a leitura de livros e discussões acaloradas sobre os acontecimentos do noticiário. Entre os clientes assíduos, Modigliani, Picasso, Van Dongen, James Joyce, Man Ray, Henry Miller e a dançarina e musa Kiki de Montparnasse (esq.).

Ateliê de Gertrude Stein

Rue de Fleurs, 27

Instalado no pátio de uma confortável casa de dois andares, era ponto de encontro de Matisse, Ezra Pound e Hemingway, que participavam de sessões de leitura regadas por muito vinho. Em suas paredes ficavam as obras adquiridas pelo irmão de Gertrude, Leo Stein - eram trabalhos de Gauguin, Renoir e Manet, além do retrato da escritora, pintado pelo amigo Pablo Picasso.

La Maison des Amis de Libres

Rue de l’Odéon, 7

Dedicada à literatura e aos escritores em língua francesa, foi criada por Adrienne Monnier, outra jovem incentivadora das letras. Além de comercializar as obras, Adrienne criou um sistema de empréstimos de livros. Entre os fiéis frequentadores estavam os poetas André Gide, Guillaume Apollinaire, Paul Valéry, Blaise Cendrars e Jean Cocteau.

Livraria Shakespeare and Company

Rue de l’Odéon, 12

Fundada em 1919 pela americana Sylvia Beach, a livraria especializada em literatura anglo-saxônica era passagem obrigatória para os muitos autores de língua inglesa que viviam em Paris na época, como Ezra Pound, Scott Fitzgerald e James Joyce. Sylvia foi a grande responsável pelo lançamento, em 1922, de Ulisses, de Joyce, hoje considerado uma obra-prima da literatura mundial.