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O que tornou Alfred Hitchcock uma lenda?

Há 41 anos, um dos mais influentes cineastas deixa o mundo. Sem Alfred Hitchcock, o mundo ficou menos inquieto e mais sem graça

Coluna - Daniel Bydlowski, cineasta Publicado em 01/05/2021, às 10h00

Ilustração de Hitchcock
Ilustração de Hitchcock - Eugenio Hansen, via Wikimedia Commons (Creative Commons)

Alfred Hitchcock morreu em 29 de abril de 1980, o diretor do famoso Psicose e Os Pássaros foi logo após receber a KBE da Ordem do Império Britânico, das mãos da Rainha Elizabeth II.

Mas qual foi a fórmula secreta para que ele se tornasse essa lenda? O vilão inocente! Seus recursos eram todos extremamente bem pensados para que não criássemos ranço de seus personagens, nem mesmo daqueles passarinhos horrorosos e aflitivos.

O pequeno terror

Criação rigorosa e de ordem religiosa, o inglês já era destaque em seu primeiro ano escolar, aos sete anos, no St. Ignatius College, fundado pelos jesuítas. Dominava latim, francês, inglês e formação religiosa. Esse fator o tornou uma bomba! O medo das regras, polícia, e as formas truncadas de educar se transformaram, mais tarde, em arte.

No último ano, chamou atenção não pelo seu sotaque perfeito ao pronunciar outras línguas, mas sim por seu lado infrator. Ganhou até um apelido: Cocky (arrogante). Bombinhas, ovos, entre outras travessuras, ele vivia eternamente no trick or treat, britânico, claro.

Ainda pequeno, enquanto frequentava a escola, sua inclinação para o terror já era explícita. Visitava o Museu Negro da Scotland Yard e se embriagava com coleções criminais, ainda não deixava de passar pelo Tribunal do Crime de Londres, atento anotava tudo, sua fixação por assassinos e psicopatas fez dele quem foi, ou melhor, quem ele é. Um ícone nunca morre.

O Jovem Sabotador – as vezes de si mesmo

Aos 14 anos já se mostrava uma pessoa diferente, ao entrar para a School of Engineering and Navigation e cursar engenharia, logo depois cursou desenho na Escola de Belas Artes da Universidade de Londres.

Paralelo às atividades acadêmicas, ajudava os pais no comércio. Após a morte de seu pai na Primeira Guerra Mundial, deixou ainda mais de lado sua curiosidade por subversão, conseguiu emprego comum na Telegraph and Cable Company. Foi dispensado do recrutamento por conta de sua obesidade e o trabalho na companhia, mas estava infeliz, enfim, foi transferido para o departamento de publicidade.

Porém, um belo dia, o bicho, que assolava Londres, o picou, e, finalmente, começou a sua jornada em busca do cinema.

Finalmente, aos 21 anos ele parou de se sabotar! Após ler uma revista de cinema, a Famous Players-Lasky Company. Aproveitou seu curso de artes e apresentou na Famous esboços de letreiros para os filmes mudos, o emprego era dele.

No primeiro ano, desenhou, no segundo foi cenógrafo e escreveu partes de roteiros. Pupilo de George Fitzmaurice, começou a ter seu pequeno, mas decisivo, espaço como diretor.

Proibido para os nervosos

Sua colaboração para Always Tell Your Wife e Mrs. Peabody, começou a despontar sua carreira. The Lodger: A Story of the London Fog, como diretor, foi o seu ticket para o suspense. Porém, nada de reconhecimento ainda.

Em 1927, The Ring, dirigido pelo pai do suspense, ficou conhecido internacionalmente. Agora sim! Depois de quatro filmes, o Oscar chegou para o Rebeca, a Mulher Inesquecível, Melhor Filme e de Melhor Fotografia Preto e Branco (1941), produção que já começava a mostrar o estado aflitivo em que se encontra o público que assiste Hitchcock.

Depois disso, o coração dos aficionados por suspense e terror começou a ter um acalanto, nasceu o famoso cineasta que deixou um legado e perturbou as mentes mais céticas e sãs do mundo.

Correspondentes Estrangeiro (1940), O Sabotador (1942), Pacto Sinistro (1951), O Corpo que Cai (1958), Trama Macabra (1976), estão entre suas obras de arte.

O auge da psicopatia

Psicose (1960) foi um filme que tirou as pessoas de seu eixo. Não conseguimos odiar o senhor Bates, e não conseguimos aceitá-lo. Digno de um sanatório, ele mexe com nossos piores pesadelos, um corpo em casa, uma mulher morta e alguém completamente desajustado em meio a tudo isso.

É uma mistura inconveniente de dó e medo que deixa o público inquieto. O indigesto, mas totalmente consumível, o personagem cresce no filme de forma desproporcional criando uma espécie de cilada. Se você gosta e tem dó, é louco, se não, é completamente desalmado. E foi assim, que sir. Hitchcock nos coloca na famosíssima sinuca de bico. Meu conselho é: gostem, mas não se deixem seduzir.

Sinônimo de aflição

Os Pássaros (1963) é o grande desafio. Assista sem fechar os olhos. Terror puro, pois foge de tudo que imaginamos. Ser atacado por seres voadores pretos insistentemente e sem dó nenhuma. Não tem muitas resenhas que falem mais do que definitivamente aflitivo. Te faz participar do filme, e isso é parte dominante das produções do cineasta. O que nos faz pensar em: imagina viver na cabeça de Hitchcock?

Aparições

Me perdoe, Stan Lee, mas o verdadeiro cameo (literalmente camafeu, significando uma "participação especial", em português), é ele, o inconfundível cineasta que mudou o cinema mundial. Apareceu pelo menos em mais de 20 dos mais de 40 filmes que produziu. Porém, parece mais uma assombração, de tão rápido, e o intuito, era fazer o close, mas não tirar a atenção do público.


Sobre o cineasta

O cineasta brasileiro Daniel Bydlowski é membro do Directors Guild of America e artista de realidade virtual. Faz parte do júri de festivais internacionais de cinema e pesquisa temas relacionados às novas tecnologias de mídia, como a realidade virtual e o future do cinema. Daniel também tenta conscientizar as pessoas com questões sociais ligadas à saúde, educação e bullying nas escolas. É mestre pela University of Southern California (USC), considerada a melhor faculdade de cinema dos Estados Unidos. Atualmente, cursa doutorado na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. Recentemente, seu filme Bullies foi premiado em NewPort Beach como melhor curta infantil, no Comic-Con recebeu 2 prêmios: melhor filme fantasia e prêmio especial do júri. O Ticket for Success, também do cineasta, foi selecionado no Animamundi e ganhou de melhor curta internacional pelo Moondance International Film Festival.


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