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Filadelfia: Filme é um marco contra o preconceito

Longa que levou Tom Hanks ao Oscar, mostra a paixão pela vida, como um imprescindível ensinamento para a sociedade e para a sétima arte

Daniel Bydlowski, cineasta Publicado em 04/12/2021, às 09h00

Cena do longa
Cena do longa - Divulgação/TriStar Pictures

O cinema vez outra busca retratar erros históricos da humanidade por meio de narrativas carregadas de emoção, mas talvez a melhor fórmula de todas tenha seja mesmo a de conseguir abordar temas controversos com um grande elenco em gêneros confiáveis como drama e suspense.

Na minha lista de clássicos que alcançaram essa façanha, e digo que talvez tenha sido o melhor na tarefa, está Filadélfia. O longa dirigido por Jonathan Demme e estrelado brilhantemente por Tom Hanks e Denzel Washington foi a primeira grande aposta de Hollywwod, com alto orçamento, a abordar o tema da AIDS. Tornou-se um marco tanto para a saúde pública, quanto para a comunidade LGTB.

E mesmo agora, quase três décadas depois de seu lançamento, o longa continua a ampliar a compreensão sobre a doença e a combater o preconceito, altamente disseminado nas décadas de 80 e 90.

Inspirado em partes em um dos primeiros grandes casos de discriminação da AIDS, o de Geoffrey Bowers, o filme apresenta a história do promissor advogado, Andrew Beckett (Tom Hanks) que trabalha para um tradicional escritório de advocacia na cidade da Philadelfia, Estados Unidos.

Recém-convidado para ser sócio, sua ascensão profissional é certa, até que uma estranha doença o afasta de suas atividades por alguns dias. Beckt acaba demitido sem justa causa, e embora seus chefes querem que ele pense que foi por conta de seu afastamento e alguns documentos extraviados, o advogado está certo que foi porque descobriram que ele é homossexual e estava com AIDS.

Uma das cenas mais relevantes para essa suspeita é quando notam na pele de Becket as lesões reveladoras de câncer de pele, associado à AIDS. Becket então decide processar o escritório de advocacia, no entanto eles são tão poderosos que restam poucas pessoas com coragem para aceitar o desafio.

É então que Joe Miller, interpretado por Denzel Washigton, um profissional de pequenas causas, e um tanto homofóbico aceita defende-lo principalmente pelo dinheiro e exposição que o caso ganhou.

Divulgação/TriStar Pictures

 

Embora o enredo pareça levar para um caminho de derrota, o que vemos na verdade é o nascimento da cumplicidade e respeito de alguém que conseguiu descontruir o preconceito e medo presentes na sociedade americana, e mundial, à época.

Joe então se entrega totalmente a missão de provar que Andrew foi demitido exclusivamente por sua opção sexual e por ser portador do vírus HIV.

E enquanto assistimos ao desenrolar do caso no tribunal, vemos também a progressão da doença de Becket e os terríveis efeitos da AIDS, em uma época que não havia conhecimento e nem remédios, e o peso social que o vírus carrega.

Becket ama a vida e não quer abandoná-la, mas o abismo entre seus desejos e a realidade é quase que palpável. Em grande parte, pela atuação de Hanks que serviu como um divisor de barreiras em sua carreira também. Foi pela entrega do ator a este personagem difícil que ele ganhou o Oscar e passou a ser convidado para papeis mais sérios.

Em uma das cenas mais memoráveis, Beckett já bastante fragilizado pela doença, traduz sua opera favorita Andrea Chérnier, de Umberto Giordano interpretada por Maria Callas, para Miller que parece impaciente e não entender bem o proposito da conversa.

Até que compreende a fina linha que conecta as sensações de Beckett, de dor, desamparo e medo à sua esperança e imensa paixão pela vida.

Muito já foi traduzido para o mundo, e há tempos falamos com mais sensibilidade e menos preconceito sobre questões como as abordadas no filme, mas talvez revisitá-lo seja essencial para um futuro melhor.

Filadélfia ganhou prêmios como Melhor ator (Tom Hanks) no Oscar e no Festival de cinema de Berlim, Melhor ator dramático no Globo de Ouro, o Grammy, o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor canção original (Bruce Springsteen com Streets of Philadelphia) e diversas outras indicações.


Sobre o cineasta

O cineasta brasileiro Daniel Bydlowski é membro do Directors Guild of America e artista de realidade virtual. Faz parte do júri de festivais internacionais de cinema e pesquisa temas relacionados às novas tecnologias de mídia, como a realidade virtual e o future do cinema. Daniel também tenta conscientizar as pessoas com questões sociais ligadas à saúde, educação e bullying nas escolas. É mestre pela University of Southern California (USC), considerada a melhor faculdade de cinema dos Estados Unidos. Atualmente, cursa doutorado na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. Recentemente, seu filme Bullies foi premiado em NewPort Beach como melhor curta infantil, no Comic-Con recebeu 2 prêmios: melhor filme fantasia e prêmio especial do júri. O Ticket for Success, também do cineasta, foi selecionado no Animamundi e ganhou de melhor curta internacional pelo Moondance International Film Festival.