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Sidney Poitier deixa legado como primeiro astro negro em Hollywood

Poitier, que faleceu em 6 de janeiro, se tornou um dos mais importantes nomes da indústria cinematográfica

Daniel Bydlowski, cineasta Publicado em 15/01/2022, às 08h00

O astro em 2006, durante o Mercedes-Benz Carousel of Hope Ball
O astro em 2006, durante o Mercedes-Benz Carousel of Hope Ball - Getty Images

Dificilmente você conhecerá alguém que gosta mesmo de cinema e nunca tenha ouvido falar em Sidney Poitier. Figura carismática, o ator há muito estava distante das telas, mas ainda assim conseguiu com maestria marcar sua presença em Hollywood.

E apesar de reconhecer que a indústria ainda apresentava dificuldades para elevar mais de uma personalidade das minorais à categoria de estrela, como disse em sua autobiografia, Poitier fez história.

Em 1958 foi o primeiro ator afrodescendente indicado ao Oscar de Melhor Ator por sua interpretação em ‘Acorrentados’, já em 1963 ele ganhou a premiação por ‘Uma voz nas sombras’, filme dirigido por Ralph Nelson.

O astro /Crédito: Getty Images

 

O Oscar, com tamanha presença e reconhecimento, de fato era uma novidade para atores e atrizes negros, já que antes de Poitier, houve apenas a atriz Hattie McDaniel, em 1940, que recebeu a estatueta de melhor atriz coadjuvante por sua atuação em ‘E O Vento Levou’. No entanto, ainda que vencedora, não há fotos dela em companhia do elenco.

Estrela por excelência, Poitier faleceu aos 94 anos, no último dia 7. Nem a causa de sua morte ou local foram divulgados. Com papeis bastante controversos à época, como o casal interracial de ‘Adivinha quem vem para jantar’, de 1967, o ator fez uma carreira desafiadora ao racismo.

Depois de Poitier, poucos outros negros ganharam o Oscar de melhor ator ou atriz, evidenciando temas que ainda precisam ser debatidos na Academia.

Nascido prematuro durante uma viagem de seus pais à Florida, Estados Unidos, Portier passou boa parte de sua infância nas Bahamas para mais tarde se mudar para Nova Iorque.

Poitier ao lado de Obama /Crédito: Getty Images

 

Com um emprego de lavador de pratos, jamais perdeu nenhuma oportunidade, isso, desde um garçom idoso que começou a ajudá-lo ainda adolescente passando as noites lendo jornais para melhorar a interpretação de texto e leitura da jovem estrela.

Sua estreia no cinema aconteceu em 1950, interpretando um médico que luta contra o preconceito e precisava tratar de um paciente racista, no filme ‘O ódio é cedo’, de Joseph L. Mankiewicz. Mas foi com seu papel como estudante em ‘Sementes da violência’ que ganhou reconhecimento.

Outros grandes títulos ficaram marcados em sua carreira como o longa de 1967, ‘Ao mestre com carinho’ em que Sidney interpreta Mark Thackeray, engenheiro que sem trabalho encontra uma oportunidade como professor em uma escola com alunos de comportamento difícil. O que será uma lição.

Não por ser estrela, mas sim por princípios, recusava a fazer papéis que o degradasse de alguma forma, um deles pagava US$ 750 por semana, pois se tratava de um zelador que não aproveitou a oportunidade de fazer algo sobre o assassinato de sua filha.

Poitier não só derrubou barreiras e abriu caminhos, mas foi por muito tempo a representação mais fidedigna, no cinema, de conquistar a representação negra para toda uma geração.

Mais tarde ele se tornaria um defensor dos direitos civis testemunhando até mesmo no Congresso sobre a falta de trabalho para atores afrodescendentes em Hollywood e marchando ao lado de Martin Luther King Jr.

Também fez história como cineasta, tendo dirigido filmes como ‘Dois loucos de dar nó’ que arrecadou uma bilheteria de US$ 100 milhões.

Em 2002, 39 anos após ganhar seu Oscar, Poitier teria sua história cruzada ao promissor futuro pelo qual batalhou. Na mesma noite em que foi premiado com o Lifetime Achievement da Academia, Denzel Whashington se tornou o segundo homem negro a ganhar o prêmio de Melhor ator por ‘Dia de Treinamento’ e Halle Berry, a primeira mulher negra a ganhar o prêmio de Melhor Atriz pelo filme ‘A última ceia’.

Além dos filmes já citados, outras três produções imperdíveis do astro hollywoodiano são:

1. ‘Mandela e De Klerk’

Poitier faz Mandiba durante a guerra do Apartheid em sua época de prisão, que após ser libertado pelo presidente De Klerk fazem história com uma democracia não racial e ganham, juntos, o Nobel da Paz.


2. ‘Sing Your Song’

O astro faz o papel dele mesmo no documentário que resgata a contribuição de Harry Balafonte na luta dos direitos civis que se instalou na América e no mundo inteiro.


3. Noite Sem Fim

Durante uma investigação sobre a morte de uma prostituta, Poitier, no papel de um detetive, começa a investigar seu amigo, um padre, que não tem nenhum álibi e admitiu ir para cama com a moça.


Sobre o cineasta

O cineasta brasileiro Daniel Bydlowski é membro do Directors Guild of America e artista de realidade virtual. Faz parte do júri de festivais internacionais de cinema e pesquisa temas relacionados às novas tecnologias de mídia, como a realidade virtual e o future do cinema. Daniel também tenta conscientizar as pessoas com questões sociais ligadas à saúde, educação e bullying nas escolas. É mestre pela University of Southern California (USC), considerada a melhor faculdade de cinema dos Estados Unidos. Atualmente, cursa doutorado na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. Recentemente, seu filme Bullies foi premiado em NewPort Beach como melhor curta infantil, no Comic-Con recebeu 2 prêmios: melhor filme fantasia e prêmio especial do júri. O Ticket for Success, também do cineasta, foi selecionado no Animamundi e ganhou de melhor curta internacional pelo Moondance International Film Festival.