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Há 138 anos, nascia 'Coco' Chanel, mulher que abalaria a sociedade conservadora

Neste dia, em agosto de 1883, nascia no interior da França aquela que anteciparia a emancipação feminina no século 20

Laura Wie, especialista em História da Moda Publicado em 19/08/2021, às 09h25 - Atualizado às 09h26

Ilustração de Gabrielle Chanel
Ilustração de Gabrielle Chanel - Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

Gabrielle Bonheur Chanel tinha 12 anos de idade quando a mãe morreu, em sua cidade natal Saumur. Sem condições de cuidar dos filhos, o pai, caixeiro viajante, precisou deixar ela e suas irmãs em um orfanato.

A Abadia de Aubazine, onde cresceu, foi responsável por uma série de referências para a vida adulta de Gabrielle. Ao sair de lá, aos 18 anos, a mocinha levou junto o gosto pela formalidade do uniforme das alunas, que tinha cores sóbrias e linhas retas - estilo que ela manteve.

Em sua trajetória como costureira, foi logo adaptando para as mulheres modernas que não queriam mais usar saias volumosas com anáguas e cheias de babados, além de blusas com rendas e fitas, que eram o costume no início dos anos 1900. Veio do mosteiro – e do seu senso de praticidade - a inspiração para a criação do “pretinho básico”, o vestido preto que se tornou um clássico em nosso guarda-roupa anos depois.

Crédito: Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

 

Outra alusão de lá foi o cheiro de roupa de cama branca lavada, emanando nos corredores. Esse era um aroma que a Gabrielle adorava e foi lembrado mais tarde, quando a estilista lançou o perfume Chanel N° 5: entre inúmeras essências sofisticadas, ele trazia um composto sintético que exalava o “cheiro de branco” e “limpeza” dentro da sua fragrância.

Além disso, foi no ambiente da Abadia que ela constatou que o 5 era o seu número de sorte, por conta de símbolos antigos que ornamentavam as paredes. Assim, não foi difícil para ela escolher e nomear a quinta amostra, entre várias, que o perfumista Ernest Beaux teve como missão criar em nome de Chanel.

E é importante mencionar ainda um item valioso para a identidade da marca Chanel: a camélia branca, a flor preferida da adolescente, que nascia nos arredores do mosteiro. Por não possuir nenhum cheiro, a flor delicada se firmou como um dos seus acessórios emblemáticos, pois não “brigava” com o perfume Chanel N° 5, e passou a decorar a lapela de casacos, o decote ou os laços de blusas, cintos e cabelos. Usada primeiramente em sua forma natural, mais tarde a camélia começou a ser executada em diversos materiais, sendo um artifício de graça e feminilidade.

Gabrielle “Coco” Chanel soube desafiar o destino humilde que estava reservado para as meninas órfãs do convento de Aubazine, abrindo seus horizontes para uma vida com mais riscos. Porém, com muita força de vontade e senso de oportunidade, ela provou seu talento costurando, produzindo e se firmando como empresária da moda em uma época em que a sociedade era bastante fechada e eram primordialmente os homens que empreendiam.

A sua determinação em transformar a vestimenta datada que aprisionava as mulheres no início do século 20 ganhou a confiança da clientela francesa e o conceito Chanel, aos poucos, se estendeu aos quatro cantos do mundo. Além das influências marcantes do seu período de estudante, a estilista desenvolveu e disseminou as roupas esportivas femininas, as calças para mulheres, o visual marinheiro de listras azuis e brancas, o cardigã, a bolsa tiracolo e os colares de pérolas, entre tantas outras peças.

Um de suas contribuições mais importantes para a mulher ocidental que conquistou amplamente o mercado de trabalho a partir dos anos 50, foi o conjunto de saia e casaco combinando - o tailleur -, quase um uniforme para a executiva que surgia.

Elegância, simplicidade na modelagem e liberdade de ação, nunca esquecendo do charme:  as palavras-chave do estilo Chanel, que sobreviveram à sua criadora e vestem as gerações que vieram e virão.

Saiba mais sobre a vida da estilista através do podcast 'Aventuras Narradas e Moda com História'.