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A identidade e resistência da mulher negra atrelada ao cabelo

Em entrevista exclusiva, a diretora, roteirista e fotógrafa nordestina Juh Almeida fala sobre o poder de comunicação e de união atribuído aos cabelos dessas mulheres

Izabel Duva Rapoport Publicado em 03/10/2020, às 10h00

O símbolo da comunidade negra
O símbolo da comunidade negra - Divulgação/ Juh Almeida

Do idioma milenar yorùbá, falado em diversas regiões da Nigéria, Benin e em outros
países africanos, a palavra irun significa cabelo e orí, cabeça.

Juntas, formam o nome do filme Irun Orí, prestes a ser lançado de forma independente e autoral pela diretora, roteirista e fotógrafa nordestina Juh Almeida, que pesquisa há anos sobre identidade e resistência negra atrelada ao cabelo.

Com imagens feitas no Brasil e em Moçambique, a obra aborda uma história oral, passada de geração em geração entre famílias que sofreram com o regime de escravidão das sociedades africanas.

“É falado que o cabelo exerceu a importante função de condutor de mensagens como parte de um complexo sistema de linguagem, em que as mulheres trançavam mapas nos cabelos umas das outras para não se perderem nos caminhos de fuga e chegarem em segurança aos quilombos, que era o lugar de encontro e refúgio”, explica Juh.

Divulgação/ Juh Almeida

 

Desde que ela começou a pesquisar cinema negro e a estudar seus antepassados, pôde observar que nem todas as histórias do seu povo foram documentadas ou escritas em livros de História e artigos acadêmicos.

“E eu, enquanto criadora de imagem, me vi nesse lugar de responsabilidade em trazer à tona essas histórias que não estão nos livros. Elas não têm data ou comprovação, mas acredito que, se estão aí, é porque existiram e foram contadas de uma pessoa até outra. Elas chegaram até mim e é por isso que eu fiz este filme. Para ter o documento.”

Pensamento coletivo

Além de documentar uma história que só existe pela via das palavras, o filme Irun Orí traz uma reflexão sobre o poder de comunicação e de união atribuído aos cabelos dessas mulheres.

“Para mim, o filme é antes de tudo uma convocação à comunidade negra ao aquilombamento, ao pensar coletivo, ao alinhamento de debates”, afirma a diretora Juh Almeida, que acredita na comunicação como ferramenta crucial para construção e progresso.

“Pois o que seria essa história, se não nossos ancestrais nos ensinando sobre identidade e a importância de sermos aliados, e de como nossos cabelos fazem parte desse movimento e nos ensina sobre nos reconhecermos e nos apoiarmos?”, questiona.

Em Maputo, capital de Moçambique, Juh conheceu – e documentou – o salão de beleza de uma mulher chamada Constance, que dizia que foi mexendo e trançando o cabelo de outras pessoas que ela encontrou sua forma de resistir, de construir e de fortalecer a identidade negra atravessada pelos processos de escravidão, de apagamento histórico e de embranquecimento social.

“Cabelo, para Constance, é sustento; mas também é resistência. E, com isso, criei uma conexão sobre como o Brasil e a África estão entrelaçados também nos nossos cabelos. Porque lá, eu, que sou baiana, consegui enxergar a Bahia nos cabelos das mulheres que eu via na rua”, lembra a diretora negra, carregando consigo a luta, a esperança e os sonhos do seu passado – que é de todos nós.


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