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Anglo-saxões: Os bárbaros ancestrais

Invasores da Alemanha, os fundadores da língua inglesa enfrentaram uma resistência de séculos, mas apagaram quase todos os traços do domínio romano da Grã-Bretanha

Reinaldo José Lopes Publicado em 30/07/2019, às 08h00 - Atualizado às 09h00

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- Reprodução

O dia amanheceu com uma tranquilidade enganosa na decadente cidade romana do nordeste da Grã-Bretanha.

Os negócios estavam fracos no mercado e ninguém mais se arriscava a usar a velha casa de banhos, tão popular entre os endinheirados do passado. Mas, pelo menos, pensavam
os bretões, dava para contar com a guarnição de mercenários saxões para proteger o local de outros bárbaros.

Por isso ninguém viu os guerreiros recebendo com toda calma os barcos a remo na praia nem percebeu que eles se juntaram aos recém-chegados, em lugar de detê-los. Num
piscar de olhos, o fórum da cidade tinha sido tomado e seus magistrados eram reféns ou cadáveres.

Os mercenários bárbaros haviam tomado o comando. Com uma ou outra variante, essa cena deve ter se repetido por toda a costa bretã durante o século 5. Ao contrário do que muita gente imagina, os saxões e seus parentes invasores, os anglos e jutos, eram velhos conhecidos da população da Grã-Bretanha. Tiveram sucesso, em grande parte, porque muitos deles foram admitidos na ilha como mercenários e só então se rebelaram.

Indumentária anglo-saxã, segundo iconografia / Crédito: Reprodução

 

Lentamente deixaram de atuar como simples piratas e foram conquistando terras e se fixando. Não que os bretões não tenham resistido depois do choque inicial.

Em muitos casos, eles conseguiram deter a maré germânica, talvez conduzidos pelo lendário líder que hoje conhecemos como Arthur. Mas, após dois séculos, os invasores se tornaram a principal força da região.

O ataque de piratas germânicos já era um problemão para os moradores da Grã-Bretanha desde o final do século 3, quando o poder de Roma ainda controlava a ilha com mão de ferro. Por volta do ano 300, o império precisou construir uma série de defesas
costeiras, os chamados Fortes do Litoral Saxão, deixando claro quem era a principal ameaça.

Por algum tempo a situação melhorou, mas em 367 aconteceu o que os romanos temiam: um ataque conjunto, em todas as frentes – saxões que atravessavam
o mar no leste, pictos da Escócia no norte, escotos da Irlanda no oeste, tudo isso misturado a uma rebelião das tropas que deveriam proteger os bretões.

O general espanhol Teodósio, pai do imperador homônimo, conseguiu deter os avanços bárbaros por algum tempo e reorganizar as defesas da ilha, mas os soldados que ele trouxe eram, provavelmente, de origem germânica, entre eles vários saxões, pelo que indica o estilo da fivela de cintos militares daquela época.

“Usar mercenários bárbaros para lutar contra outros bárbaros era uma prática comum em todo o mundo ocidental”, diz Johnni Langer, especialista em história medieval da Universidade Federal da Paraíba. A situação política destrambelhada do império logo deixaria a ilha ainda mais vulnerável.

É que generais que comandavam tropas na Grã-Bretanha, a começar pelo poderoso Magnus Maximus, em 383, passaram a ambicionar o cargo de imperador. A cada tentativa (fracassada) de tomar o poder, arrastavam para o continente quase todo o exército e deixavam a ilha desguarnecida.

Romanos lutam contra saxões / Crédito: Reprodução

 

Quando o último desses usurpadores, Constantino III, deu com os burros n’água, os bretões se cansaram e se declararam independentes. O imperador legítimo, Honório, reconheceu o fato em 410, autorizando os nativos da Grã-Bretanha a organizar sua própria defesa.

Mas os bretões não sabiam pensar em nada melhor do que continuar a política romana de contratação de mercenários. Havia gente de sobra disposta a encarar esse serviço entre os anglos e saxões (do norte da Alemanha), jutos (sul da Dinamarca) e frísios (da Holanda).

“Os dialetos que se formaram na Inglaterra depois da imigração sugerem que todos esses subgrupos falavam uma língua comum, com variações regionais”, conta
Michael Drout, especialista em língua e literatura anglo-saxã do Wheaton College, nos EUA. Todos também enfrentavam um problema comum: a superpopulação e a falta de
áreas para cultivo em suas regiões natais, pantanosas e perto do mar.

De Piratas a Conquistadores

A Grã-Bretanha era a terra das oportunidades e há sinais de que, no começo do século 5, havia anglo-saxões se estabelecendo como posseiros, outros servindo na defesa das cidades e muitos atuando como piratas. Os registros da época são confusos, mas parece que um chefe bretão de nome Vortigern, que havia se tornado governante supremo de boa parte da ilha, tentou transformar mercenários saxões em seu exército pessoal, concedendo-lhes algumas terras.

Vortigern, Rei dos Bretões / Crédito: Wikimedia Commons

 

Mas não cumpriu o prometido. “Foi um dos erros de cálculo mais espetaculares da história britânica”, diz o historiador Simon Schama, autor de A History of Britain. Os chefes dos guerreiros contratados por Vortigern, os irmãos Hengest e Horsa, teriam se rebelado. Conclusão: os protetores (ou piratas) teriam se tornado conquistadores.

“As evidências arqueológicas mostram que a migração durou um século ou mais. Podem, sim, ter existido líderes com os nomes Hengest e Horsa, mas as menções a eles em poemas épicos dos anglo-saxões sugerem que o mais provável é que fossem personagens lendários”, diz Drout, lembrando que os dois nomes querem dizer cavalo, venerado pelos saxões.

O fato é que o cavalo dos invasores eram seus barcos a remo. “Na verdade não passavam de canoas que provavelmente não tinham vela”, conta Langer. Mesmo assim eram boas o suficiente para fazer a travessia do mar do Norte e subir os rios até as cidades e os povoados rurais.

O armamento também era simples, mas eficiente: lanças, machados, uma espada curta chamada seax (origem do nome tribal dos saxões) e escudos de madeira. Tudo indica que os nativos da ilha se recuperaram do susto inicial porque, depois de um avanço saxão que atingiu cerca de metade do território da atual Inglaterra, houve um respiro.

Nas primeiras décadas do século 6, alguém chamado Arthur (provavelmente um general, e não um rei) parece ter liderado a cavalaria bretã contra os soldados de infantaria saxões e levado a melhor. Mas a divisão da Grã-Bretanha em pequenos reinos, sem uma liderança forte, impediu que a reação fosse pra valer.

Um novo grupo de invasores, que iriam formar o reino saxão de Wessex, voltou a empurrar os bretões para o oeste. É bom frisar que o processo foi lento. No início os anglo-saxões eram só uma nova elite, governando uma população nativa maior, que não foi exterminada.

“A substituição completa nunca aconteceu. O que houve foi a prevalência cultural das populações germânicas”, explica Langer. Na Inglaterra e em parte da Escócia, a partir
do ano 600, os recém-chegados reinavam absolutos.