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Elvis foi ali criar o rock e já volta

Como a tentativa de gravação quase frustrada de uma canção desconhecida, por um cantor iniciante, deu à luz um dos gêneros musicais mais importantes de todos os tempos

Hugo Oliveira Publicado em 02/12/2021, às 18h31

Retrato fotográfico de Elvis Presley, em 1956
Retrato fotográfico de Elvis Presley, em 1956 - Getty Images

É um tema complexo este da invenção do rock’n’roll, primeiro pilar da cultura pop genuinamente jovem do século XX. Variadas versões e personagens têm papéis importantes nessa empreitada, mas nenhum evento é tão crucial quanto o dia em que “aquele menino de costeletas” foi chamado pelo dono de uma pequena gravadora para fazer um freelance como cantor... E saiu de lá com a paternidade do rock nas costas. Ou melhor, na pélvis.

O garotão branquelo e pobre era Elvis Aaron Presley; o proprietário da Sun Record Company atendia por Sam Phillips. O nascimento do rebento data de 5 de julho de 1954, no fim de tarde de uma segunda-feira. Era verão, mas certamente as paredes com tratamento acústico do número 706 da Union Avenue, em Memphis, Tennessee, Estados Unidos, deviam estar ainda mais quentes do que o habitual.

Magia à parte, vamos à realidade: a sessão musical da qual Elvis, na época com 19 anos, participava, não rendeu. Ele foi chamado por Sam para registrar a canção “Without You”, que chegou ao produtor numa gravação demo de um cantor de Nashville. O mandachuva da Sun tentou obter a permissão do artista que havia feito a música, mas, ao ligar para a cidade onde a faixa foi gravada, ninguém sabia quem era o responsável por ela. Sobrou para o “olhar de peixe morto” fazer o trabalho. E ele não fez. Ao menos, não do jeito – e no momento – esperado.

Elvis, que já havia conhecido o estúdio em 1953, quando gravou duas faixas com voz e violão por US$ 4, foi chamado para defender a canção num sábado, 3 de julho do ano posterior. Sam colocou a demo no som e o aspirante a cantor atacou a faixa com paixão e vontade. Mas não rolou. Foi sugerido a ele que cantasse outras, porém, a performance seguiu morna, melhorando um pouco apenas quando ele interpretou números gospel, country e pop da época.

O astro do rock Elvis Presley / Crédito: Getty Images

 

No domingo, dia seguinte, Elvis se encontrou com o guitarrista Scotty Moore na casa do próprio, que por sinal, era próxima a do baixista Bill Black. Os dois músicos tocavam no Starlite Wranglers e, a pedido de Sam, juntaram-se numa espécie de ensaio/aquecimento com o garoto. Fizeram um som juntos e se divertiram, mas nada além do normal... Por pouco tempo. O relato do escritor americano Nick Tosches no livro “Criaturas Flamejantes”, lançado no Brasil em 2006, pela Conrad Editora, detalha o esperado momento.

“Segunda-feira, 5 de julho de 1954. O rock-and-roll passa a existir.Sam Phillips, Elvis Presley, Scotty Moore e Bill Black estão no minúsculo estúdio de 50 metros quadrados da Sun, mexendo em ‘Blue Moon of Kentucky’, uma música que Bill Monroe and His Blue Grass Boys haviam lançado em 1945 pela Columbia. Phillips tem aquele maldito som estranho no porão do seu cérebro, observa Presley e tem esperanças”.

O relato de Tosches continua. “Finalmente o som está no ar – materializado, mágico –, capturado na fita magnética. É um som curioso, palpável. Passaria a ser chamado de rockabilly em menos de um ano. Sam Phillips sorri: ‘Diabos, isso é diferente’, diz. ‘Agora é uma música pop, Levi. Muito bom’”.

O resto é história, correto? Sim, tanto o resto quanto às questões conflitantes relacionadas à canção que Elvis e os músicos teriam tocado naquele momento. Tosches, que faleceu em 2019, era uma sumidade quanto ao início do rock. Ainda assim, tanto o jornalista francês Florent Mazzoleni no livro “As raízes do rock” (2012 – Companhia Editora Nacional) quanto o escritor e professor americano Paul Friedlander no volume “Rock and Roll: uma história social” (2002 – Editora Record), afirmam que a música cantada por Elvis que teria originado o rock foi “That’s All Right Mama”.

“Confiante, Elvis entrou no estúdio no dia 5 de julho de 1954, no final da tarde, escoltado por Moore e Black, para apresentar algumas canções de rhythm’n’blues e country. O resultado não entusiasmou Phillips. Ao final da sessão, Elvis começou a cantar ‘That’s All Right Mama’, a música de Arthur ‘Big Boy’ Crudup lançada em 1946. A música suscitou uma reação imediata em Sam Phillips, que sempre defendeu aquele estilo de rhythm’n’blues urbano”.

Versões à parte, a defesa de Tosches referente à primeira faixa não diminui a importância da canção citada no trecho acima, pinçada do livro de Mazzoleni. Também defendida por Friedlander como a verdadeira pedra filosofal do estilo, “That’s All Right Mama” é justamente o lado B do primeiro compacto lançado pelo cantor Elvis Presley pela gravadora de Sam, vindo ao mundo exatos 14 dias após o “bing-bang roqueiro” daquele 5 de julho de 54. No lado A, a faixa que abria o disquinho de vinil era justamente “Blue Moon Of Kentucky”.

Elvis Presley, o Rei do Rock / Crédito: Wikimedia Commons

 

É bem provável que o protagonista desse momento único da cultura pop e da música mundial, ao retornar para casa depois daquele dia de música aparentemente promissor – segundo o dono da gravadora –, não fazia ideia do que ia acontecer com a vida dele a partir daquela gravação divertida, mas meio estranha.

A julgar por sua ingenuidade e simplicidade, Elvis bem que pode ter voltado para a residência onde vivia com os pais com um sorriso no rosto, pensando consigo mesmo: será que com a música eu consigo ganhar mais do que os US$ 42 que faturo dirigindo um caminhão da Crown Eletric Company?

Quem sabe, amigão. A vida é um trem misterioso.

 

 
 
 
 
 
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No episódio mais recente do podcast ‘Desventuras na História’, o professor de História Vítor Soares, que é a voz por trás do podcast 'História em Meia Hora', apresenta a história do Rei do Rock, desde o início de sua carreira de sucesso até sua trágica morte.

No 'Desventuras na História', você também pode conferir as trajetórias de Maria Antonieta, Dante AlighieriAlexandre, O Grande, Gengis Khan, Dom Pedro I e Napoleão.

Abaixo, é possível ouvir o episódio 'Elvis Presley: o mito, a música e a morte do Rei do Rock':