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A realidade e fábula de ‘Spencer’, que retrata história da princesa Diana

Filme indicado ao Oscar conta com Kristen Stewart na pele de Lady Di e narra eventos reais mesclados a elementos psicológicos

Isabela Barreiros Publicado em 26/03/2022, às 08h00

Kristen Stewart como princesa Diana em 'Spencer' (2021)
Kristen Stewart como princesa Diana em 'Spencer' (2021) - Divulgação/Diamond Films

A história da princesa Diana e sua conturbada passagem pela família real britânica já foi retratada nas mais diferentes formas de mídia e literatura. Explorada à exaustão, a narrativa da professora do jardim da infância que se casou com o herdeiro do trono britânico foi série, filme, documentário, livro e tudo o que puderam fazer dela.

Em uma tentativa de trazer uma perspectiva diferente das outras produções sobre os eventos da realeza britânica, especialmente entre 1981 e 1996, o diretor Pablo Larraín foi responsável por Spencer”, que estreou nas telonas brasileiras em fevereiro deste ano trazendo Kristen Stewart na pele de Lady Di.

O filme se anuncia como “uma fábula tirada de uma tragédia real” e se propõe a retratar o psicológico de uma das — então — mais observadas figuras do mundo, com seu casamento por um fio e a saúde mental completamente em cacos. Os escândalos da relação com o príncipe Charles e a vida da nobreza foram torturando-a aos poucos.

Querendo mostrar aos espectadores o adoecimento mental e físico de Diana (por meio de um distúrbio alimentar), o cineasta abusou da licença poética concedida a cinebiografias e acrescentou elementos dramáticos à obra. Por isso, nem tudo que assistimos aconteceu “ipsis litteris”, podendo ser uma metáfora ao episódio real em si.

Para que você possa entender melhor sobre o que é realidade e o que não passa de fábula em “Spencer” (2021), a equipe do site do Aventuras na História destrinchou a produção e algumas passagens importantes do filme de Larraín que podem ter causado confusão entre quem é fã da princesa mais amada de todos os tempos.

Um conto de fadas da vida real

A cinebiografia se passa no começo dos anos 1990, período em que o casamento de Diana e Charles já se encontrava desgastado e repleto de polêmicas. Ainda assim, o casal vai com os filhos para o castelo de Sandringham, onde serão feitas as celebrações de Natal da família real britânica.

Diana e Charles em 'Spencer' (2021) / Crédito: Divulgação/Diamond Films

No filme, vemos uma princesa conturbada pela ideia de se pesar no protocolo real de pesagem pré-jantar, que é uma verdadeira tradição da realeza do país. Nela, os nobres são pesados antes e depois de comerem, uma prática que foi instituída pelo rei Eduardo VII no início dos anos 1900 a fim de garantir que todos tivessem se alimentado bem no feriado.

Outra situação verdadeira retratada em “Spencer” foi o distúrbio alimentar da Princesa do Povo. Apesar da bulimia ter sido representada de forma metafórica na cena em que Diana come as pérolas, engatilhada por um ambiente sufocante e o casamento falido, o transtorno alimentar também é mostrado em outros momentos do filme, inclusive quando Charles a pede que mantenha o lindo café da manhã na barriga, não o desperdiçando-o.

Cena em questão do filme 'Spencer' (2021) / Crédito: Divulgação/Diamond Films

A bulimia foi uma das maiores batalhas contra a qual Lady Di lutou durante sua vida. No livro, “Diana: Her True Story (1992)”, o historiador Andrew Morton descreve conversas gravadas com a princesa em que ela fala sobre como um comentário do marido sobre o peso criou o gatilho para o problema.

"Meu marido colocou a mão na minha cintura e disse: 'Um pouco rechonchuda aqui, não estamos?'. Isso criou algum gatilho em mim, além da situação com Camila [Parker Bowles]", contou Diana na época.

Embora o casamento tenha sido um fracasso e Charles tenha tido, de fato, um caso com Camilla Parker-Bowles, sua atual esposa, não existem evidências de que o episódio de ela e Diana ganhando o mesmo colar de pérolas tenha acontecido. Essa foi uma das licenças poéticas do diretor na obra, assim como outros aspectos psicológicos.

Ana Bolena assombrando Diana em 'Spencer' (2021) / Crédito: Divulgação/Diamond Films

A presença do fantasma de Ana Bolena no palacete também foi uma forma que Larraín encontrou de mostrar os desconfortos da nobre durante as festividades, traçando um paralelo entre a história das duas figuras históricas. Bolena foi rainha consorte da Inglaterra até ter seu casamento com Henrique VIII anulado em 1536 — ela acabou sendo morta dois dias depois.

Uma Diana real

Um aspecto importante de Diana apresentado em “Spencer” é sua relação com os funcionários da realeza e a dispensa em grandes formalidades. No filme, ela fala sobre seus sentimentos à camareira Maggie e ao chef real Darren McGrady.

A primeira não existiu de fato, mas foi inspirada na funcionária real Fay Appleby, que viajou seis anos junto com a princesa pelo mundo, de quem ela era muito próxima. Já o segundo, além de ser real, esteve inclusive cozinhando na propriedade de Sandringham durante o Natal de 1991.

Diana e a camareira Maggie em 'Spencer' (2021) / Crédito: Divulgação/Diamond Films

Em uma entrevista ao jornal Daily Express, McGrady contou: “Depois que a rainha e a realeza deixaram a sala de jantar, a princesa Diana gostava de entrar para conversar, andar pela cozinha e ver o que estava acontecendo”.

A moda

Diana também entrou para a história diante das peças icônicas e marcantes que vestiu ao longo dos anos em que esteve na família real britânica. O filme "Spencer" (2021) vem de encontro com o lançamento "Casa Gucci" (2021), que relembra a saga da família que criou um império. 

Abaixo, confira o nosso especial no podcast 'Aventuras Narradas em Moda com História', com roteiro e narração de Laura Wie, especialista em História da Moda.