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Jesus negro: o polêmico enredo da Mangueira no carnaval do ano passado

Relembre o que a escola de samba levou para a avenida a partir do enredo “A verdade vos fará livre”

Larissa Lopes, com supervisão de Fabio Previdelli Publicado em 15/02/2021, às 18h00

Representação de Jesus idealizada pela Mangueira, em 2020
Representação de Jesus idealizada pela Mangueira, em 2020 - Getty Images

Criado para ‘aliviar’ as tensões no período cristão que antecede a quaresma, o Carnaval teve origem na Idade Média. O nome vem do latim ‘carnelevarium’, que significa ‘adeus à carne’. 

Mesmo surgindo na Europa, a festa carnavalesca nunca foi tão comemorada como no Brasil, onde a população participa ativamente. Dentre as capitais que sediam a folia, pode-se destacar Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.

O primeiro concurso oficial das escolas de samba aconteceu no ano de 1932. A vencedora foi a Estação Primeira de Mangueira, fundada em 1928. O cantor já falecido Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, foi um dos fundadores da escola.

Os polêmicos Sambas Enredo

Em 2019, a Mangueira foi campeã das escolas do grupo especial do Rio de Janeiro com o enredo polêmico “História pra ninar gente grande”. O desfile tratou de personalidades da história brasileira que foram ‘apagadas’, e incluiu a vereadora Marielle Franco — assassinada em 14 de março de 2018.

Já em 2020, o enredo da escola também foi muito discutido, entre pessoas que apoiavam a narrativa e outras que enxergavam ataques a valores cristãos. Isso porque a Mangueira apostou em “A verdade vos fará livre”, para mostrar uma versão nada convencional de Jesus.

Versão de "Jesus mulher" trazida pelo desfile da Mangueira. Crédito: Getty Images

 

O carnavalesco Leandro Vieira levou para a avenida versões de um Jesus negro, índio, mulher e até ‘favelado’. De certa forma, o enredo de 2020 foi uma continuação do anterior, em 2019.

Confira um trecho do samba-enredo:

"Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

Moleque pelintra do Buraco Quente

Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro desempregado

Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira"

A intenção da escola era usar a arte como provocação. Foi o que disse o jornalista Aydano André Motta, em entrevista à DW Brasil. Autor de livros sobre o carnaval, Motta avaliou: "Leandro [carnavalesco] parte da premissa de que não há uma imagem verdadeira de Jesus. A gente se convencionou, por uma questão de centralismo europeu, de considerar que Jesus era o Jesus da Renascença, caucasiano de olhos claros".

A visão apontada pelo pesquisador faz parte da ideologia eugenista, que domina o imaginário geral sobre Jesus. "Esse enredo é uma obra questionadora de parâmetros brasileiros, que são veículos de intolerância frente a vários aspectos da vida brasileira", afirmou Motta.

Versão de Jesus 'favelado' e que é enquadrado pela polícia. Crédito: Getty Images

 

Contudo, outra parcela dos espectadores não aprovou a escolha da Mangueira, bem como o que foi representado na avenida. Grupos religiosos e conservadores estavam à frente das críticas.

Um deles foi o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, que acusou a escola de cometer blasfêmia — ato de insultar o que é sagrado. A instituição ainda sugeriu acionar a Justiça contra a Mangueira.

Na época, era também discutida a polêmica do “Jesus gay”, estrelado no especial de Natal do Porta dos Fundos, na Netflix.

Foto de uma das alas do desfile da Mangueira. Crédito: Getty Images

 

Para o professor Francisco Borba Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, a polêmica no enredo da Mangueira foi além da cor da pele. "A questão é a presença de uma imagem de Cristo em meio a mulheres seminuas, homens supostamente embriagados, foliões LGBT, etc”, avaliou.

Futuro dos enredos

Em janeiro de 2020, em resposta à demanda das escolas, vinte e uma entidades religiosas — lideradas pela Arquidiocese do Rio — enviaram uma carta à Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), com o pedido de que sejam consultadas dali em diante sobre enredos religiosos. 

Já a Igreja Católica diz preferir o diálogo com as escolas de samba. Em 2017, a Arquidiocese de São Paulo mostrou apoio à escola de samba Unidos de Vila Maria, que homenageou Nossa Senhora. "As organizações religiosas consideraram a experiência positiva, mas nem por isso evitaram as críticas ao diálogo estabelecido”, concluiu Borba Neto.


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